O catador de papel

Outubro 20, 2009

Não era necessário escrever sobre isso, bastava apenas uma foto. Mas, às vezes, é bom treinarmos a imaginação e nos forçarmos para descrever com riqueza de detalhes uma coisa tão poética que dá até medo de escrever pra não estragar. 

No único descanso do dia

É um vulto entre as avenidas

Recolhendo o que ninguém mais queria

Cantando músicas esquecidas 

Sentou pra descansar

O único descanso do dia

Antes da hora do jantar

Antes da fome da filha 

Dos cachorros deitados ao seu lado

Ao carrinho estrategicamente parado

O único descanso do dia

E tudo lembrava poesia 

De uma capa surrada a outra

Dos personagens mortos, das suas alegrias

Histórias surgindo do lixo

No único descanso do dia.


A vida como ela é

Outubro 20, 2009

Não se tem reuniões para ter idéias, conclui Renan depois de mais uma interminável reunião do departamento de criação. Não se cria nada assim, nada de qualidade pelo menos, insistiu o publicitário novato, que ainda queria mudar o mundo do advertising com toda a sua criatividade juvenil.  Só faltou ele chorar quando viu a campanha para uma loja de móveis que saiu do resultado daquela e de muitas outras reuniões de criação. ‘Ou vocês acham que Deus criou o mundo a partir de uma reunião de brainstorm com a Santíssima Trindade, bando de canalhas?’ tentou desesperado causar algum efeito na cabeça daqueles homens sentados com seus gadgets pendurados em portas USB de notebooks caros e com símbolos de fruta.

‘Vendidos!’ bradou Renan, e foi ter aula de violão pra aprender a tocar Raul Seixas. Hoje faz riminhas toscas com palavras em inglês usadas no mercado publicitário na praia de uma cidadezinha bem longe daqui, ninguém entende nada, e por isso não ganha nem um centavo de esmola dos caiçaras do lugar. Erro de público-alvo, se quiser tocar na Paulista eu até te agencio’ diria seu ex-chefe, ou manager, como ele gosta de falar, mas Renan, lá de longe, não escutaria, teimoso que só ele.


O crime da Rua Rolândia

Outubro 20, 2009

     O céu estava nublado naquela noite e a rua era tomada pela garoa insistente que só existe em São Paulo. Um dia que se não existisse não faria a menor falta, quarta-feira de uma semana interminável. As crianças viam TV antes de a mãe assumir o controle para ver a nova novela das oito e Seu Zé, cansado, fumava seu último cigarro do dia após ter jantado na mesinha de quatro lugares que ficava no canto da sala ainda em obras. Mas ninguém poderia prever os acontecimentos que se discorreriam naquela fatídica noite.

      A despeito do marasmo, Tico, o canário de Seu Zé, cantava alegremente, como sempre fazia. Uma canção de resistência frente ao tédio daquela quarta-feira. Como já acostumada ao canto do passarinho, a família foi dormir alheia ao estado de espírito de Tico e preparando-se para uma quinta-feira que seria idêntica a todas as outras quintas-feiras da história da família. Seria, não fosse o duro baque sofrido à noite, revelado pela manhã cinzenta que acabara de nascer.

      Acontece que o Seu Zé tem um vizinho de nome Simba. Simba é um gato tigrado em tons de cinza, desses que só moram na sua casa pra comer e dormir, e passam mais da metade do dia pelas ruas e telhados. Um típico gato vira-lata, como podem comprovar as gatas das casas vizinhas e agora o Seu Zé e sua família também. Naquela quinta-feira, ao levantar, Seu Zé, dando falta do canto matutino habitual de Tico, foi até o quintal para ver porque o pássaro não cantava.

     O que ele viu foi a cena de um crime, pintada claramente no quintal de sua casa: de Tico, só sobraram poucos restos de penas e sangue no chão, enquanto Simba limpava os bigodes a poucos metros dali. Seu Zé tem certeza de que o canário virou refeição e lamenta o fato de não poder ao menos fazer um enterro pra Tico, fiel companheiro de tantos dias entediantes. Mas, ao ser questionado sobre o desfecho da história, Seu Zé diz pra avisar que ainda não acabou, só vai acabar quando ele der cabo ao gato. No trabalho, todos dizem ao Seu Zé que o que resta é comprar outro canário e que é parte da natureza do gato comer passarinhos. Ele não se dá por vencido, quer vingar Tico, enquanto Simba, satisfeito, limpa os bigodes com a barriga pra cima no telhado do lado, comemorando o álibi que a natureza lhe concedeu e mais uma refeição que Seu Zé, sem querer, forneceu.


O dia da revolução

Outubro 15, 2009

Hoje eu não quero conversa mole.

Hoje eu não quero os mesmos assuntos fúteis de sempre.

Não quero a mesma vida mecânica, a mesma fumaça.

Hoje eu não quero ver nada, hoje eu quero fazer.

Quero questionar, quero mudar.

Mesmo que amanhã tudo continue no mesmo lugar.


Onirismo Profissional

Outubro 8, 2009

Não saiu, não gritou, não bateu, tampouco moveu a boca e os dentes cerrados. Até gostaria, mas se contentou em passar pelo corredor com os músculos retesados e fechar os dedos da mão, pronto para o combate. Um combate inexistente e, caso existisse, seria perdido. Ia deixar passar, precisava do emprego. Tinha uma esposa, dois filhos e uma sogra gorda pra sustentar. Ia deixar passar sim, mas da próxima levantaria a voz. Da próxima não só levantaria a voz, mas diria umas belas verdades ao chefe esquálido e angular que se misturava à sua sala assim como a mobília cara e imponente. Da próxima vez jogaria tudo pro alto, pediria demissão, e aí sim o chefe ficaria sem reação e imploraria para ele ficar. Ele, altivo, diria que não, que não suportaria nem mais um minuto daquela humilhação constante e do salário ridículo. Falaria assim mesmo, ri-dí-cu-lo. O chefe não ia querer nunca que ele fosse, mas ele ia. Da próxima vez, ele ia mesmo. E não voltaria nem para assinar a rescisão. Da próxima vez ia dizer ao chefe que de nada valia aquele escritório bonito e o carro bacana. Não se importava nem com as casas na praia, não precisava disso. Da próxima vez, na verdade, diria ao chefe para engolir tudo aquilo que ele estava indo embora com a sua humilde felicidade. Não diria nada disso no palavreado bonito e floreado que o chefe teimava em usar, diria isso no palavreado comum a todos os funcionários sentados na calçada no intervalo sagrado do almoço. Da próxima vez, terminaria todo o seu discurso com uma meia volta elegante e uma cusparada no chão de mármore do escritório do chefe. E bateria a porta ao sair. Mas isso tudo da próxima vez, por que agora precisava se concentrar em terminar o atrasado relatório de vendas do mês. “Da próxima vez não quero mais saber de atrasos!”, disse o chefe com a cabeça pra fora da sala, enquanto ele maquinava o que faria na sua próxima vez, aquela que nunca chegaria.


Desculpa esfarrapada

Setembro 23, 2009

Minha vida está corrida demais…Não que isso seja desculpa, porque, convenhamos, não é.

Mas eu tinha me acostumado com a vida mansa e agora não consiho fazer nada além de: escovar os dentes, tomar banho, comer, namorar, ir pra faculdade, pegar ônibus, trabalhar e dormir nesses intervalos (algumas vezes durante) e não necessariamente nessa ordem.

Estou trabalhando numa história aí, o que geralmente não funciona comigo, já que geralmente eu vomito as coisas de uma vez só, e talvez também eu poste duas poesias, já que agora eu estou rimando, mal e porcamente, mas rimando, há!

(Quanto gerúndio! Percebi agora.)

De resto tudo certo, o mesmo caminho todo dia, as mesmas caras todo dia, tudo o mesmo demais! Mas não é assim que é sempre?


Cai um mito

Agosto 21, 2009

Pééémmmmm, Pééémmmm. De novo aquele barulho irritante me despertava. 05h40 da manhã e já era a terceira vez que eu adiava o despertador, mas não tinha mais jeito e eu precisava levantar e encarar aquele mesmo tédio de sempre. Vesti-me mecanicamente na meia-luz, fiz a barba meio sonolento, mas logo percebi que não seria um dia comum. A começar pela aranha que eu vi na minha cozinha, e eu moro no 20º andar, um lugar estranho para uma aranha estar, e ela era azul-bebê. Reflexos da noite passada, pensei eu, e sai para o trabalho. Ao cumprimentar o Seu Adamastor, porteiro do prédio, que estava mais sinistro do que o normal aquele dia, com uns óculos Ray-ban e ouvindo um iPod de última geração, dei de cara com outra aranha, dessa vez cor-de-rosa.

Como se não fosse suficientemente estranho ver aranhas coloridas, o meu ônibus passou rapidinho, e vazio. Um ônibus vazio de manhã em Nova York, isso sim era bem mais estranho do que aranha coloridas. Contudo, subi no ônibus, com uma expectativa de que toda aquela estranheza não fosse parar por ali. A cobradora, uma mulher linda com o olho cor de violeta, me deu um sorriso furtivo ao me devolver o troco, com alguns centavos a mais do que o correto e com um bilhete aonde se lia:

Quer passar por baixo da minha catraca? 2547-7777 Beijos, Lu

Olhei para ela como quem não acreditasse que algo assim pudesse acontecer, e imediatamente rasguei o bilhete e o joguei pela janela, certo de que aquilo devia ser algum tipo de armação. Essa atitude foi malvista pela motorista, também mulher, mas com um aspecto mais masculinizado. Tentei bater uma foto desse momento surreal, mas descobri que o aspecto masculino não era à toa quando ela deu uma guinada fortíssima a fim de me fazer bater a cabeça no banco da frente, e a ultima imagem que vi antes de desacordar foi a cobradora rindo, satisfeita em sua vingança.

Acordei num quarto onde havia uma gigantesca aranha fúcsia sentada olhando diretamente pra mim, quer dizer, aranhas têm muitos olhos (ou será que são as moscas?), mas pelo menos quatro deles certamente me encararam. Eu não fazia idéia do que estava fazendo ali, mas logo percebi que devia ser alguma vingancinha idiota da Mariana, uma louca com quem eu tinha tido um breve relacionamento, encerrado após ela declarar que não mais se depilaria, nunca mais. Quando tentei me movimentar, estava amarrado por dois sutiãs parcialmente queimados, numa cama de solteiro. Pajeando a aranha, estavam várias mulheres, gordas, magras, altas, baixas, com um peito só, com cabelos longos, curtos, olhos azuis e olhos de aranha.

 Muita mulher pra um quarto só, o que quer dizer um ruído insuportável e todas falando ao mesmo tempo, e o mais misterioso, todas escutando tudo! Ficavam falando alguma coisa sobre o plano de dominação mundial, de ódio aos homens e um blá blá blá que eu já devia ter escutado em algum programa matinal da TV aberta ou nas minhas aulas da faculdade de jornalismo. Enfim, como eu estava meio grogue ainda, não entendi direito. Só voltei a me recompor quando bolei um plano de ação pra escapar dali:

- Tá bom, entendi que vocês me odeiam só porque eu sou homem, agora o que eu faço pra sair daqui? – de uma genialidade tremenda esse comentário.

 - Nós temos o poder, mesmo quando você sair daqui, um dia você ainda será dominado por uma de nós. O dia em que não houver só substantivos masculinos, o dia em que não formos consideradas histéricas… – e lá se ia mais um discurso de um Marcus Garvey de saias, que durou não sei quanto tempo, mas o suficiente pra eu dormir, acordar, e a aranha continuar falando… – e agora, pra você ser liberado pra voltar a essa vida fútil de macho alfa, temos que deixar você marcado para sempre, pra servir aos nossos propósitos…

-NÃÃÃÃÃÃOOOOOOOOOOOOOOOO

 

Tudo o que aconteceu naquele dia, me mudou para sempre, e as mutações que sofri me trouxeram poderes, e responsabilidades, e um instinto feminino muito aguçado para um macho como eu. Voltei para casa sob circunstâncias que prefiro não revelar, e quem me conhece (e vê minhas tatuagens de aranhas coloridas cerceando partes indizíveis aqui) sabe que não estou mentindo quando conto essa história.

Hoje todo mundo acha que eu sou um puta super-herói, mas ninguém sabe que eu na verdade, faço parte dos planos feminista de dominação mundial, e estou fadado a ser seguido o tempo todo por aranhas coloridas, uma de cada cor. Pros meus amigos íntimos, explico porque odeio o feminismo. Odeio ainda mais quando aquela insuportável da Mary Jane me obriga a salvar ela de algo. Se é mulher independente e vai dominar o mundo, tem que pedir socorro porque então porra?


Carlos, o louva-a-deus ateu

Agosto 10, 2009

Viveu a sua vida inteira até aquele momento (o que devia totalizar uns oito meses, não sei bem quanto tempo vive um louva-a-deus) resignado em sua comunidade, fingindo ser algo que não era, um louvador-de-deus. Carlos era um louva-a-deus sim, de família nobre que habitava árvores em volta de Jerusalém, uma ironia que espantava Carlos mesmo depois dos oito meses de vida naquele lugar, mas, apesar do nome tão óbvio e das mãozinhas que a natureza dispôs em movimento de reza, era ateu.

Veja bem, demorou muito até Carlos se declarar ateu e enfrentar a fúria de toda uma espécie. Desde o seu nascimento, estranhava aquelas mãos juntas e as orações infindáveis que seus pais e parentes faziam o dia todo, antes de comer, antes de caçar, antes de dormir, até antes de acordar se isso fosse possível também. Não se sentia bem, não conseguia acreditar que se de fato existisse um Deus que, sendo deus e gostando de animais, seria mórbido ao ponto de criar um inseto tão inútil quanto ele. Se existe Deus mesmo é egoísmo demais me criar pra não fazer nada além de louvar-a-deus.

Então, firme em seus propósitos, mas temendo sofrer retaliações dos louva-a-deus, famosos por serem fanáticos e por atentados terroristas contra bichos mais profanos como as baratas, Carlos continuou vivendo como um louva-a-deus normal e discreto, mas alimentando secretamente o sonho de se rebelar contra essa religiosidade que nada tinha a ver com ele.

Foi assim até aquele momento, o dia-D como Carlos gosta de contar hoje. No meio de mais uma oração feita pelo seu tio avô Geraldo, tão longa e monótona que se o tio tivesse morrido durante a oração era bem capaz que ninguém tivesse percebido, Carlos saiu de fininho, com uma idéia genial praquelas mãos unidas contra sua vontade. Voou para Sodoma, uma cidadezinha no meio do deserto, parada de besouros beduínos viajantes, conhecida como a Las Vegas Oriental e, já sabendo que o microfone cabia exatamente no vão infeliz de suas mãos, começou a fazer shows em bares de administração e clientela duvidosa, onde belas mariposas costumavam dançar sensualmente e servirem bebidas direto na boca dos mais variados tipos de inseto.

Hoje faz shows de comédia stand-up (sempre com piadinhas sobre ele ser um louva-a-deus ateu), canta Frank Sinatra e sapateia (já que dançar não é possível). Cogita até se inscrever para o Big Brother Oriente Médio, e não teme as críticas vindas dos outros louva-a-deus, já que agora é uma espécie de renegado e se casou com Lisbela, uma aranha viúva negra que, por uma incrível coincidência, também traiu sua natureza e não mata Carlos, que é o seu primeiro (e, ela espera que seja o único) marido.

Sendo assim, Carlos se considera feliz e satisfeito sem precisar recorrer a fé que os seus parentes utilizavam, mas não consegue evitar de dormir todas as noites com as mãos em forma de oração.


Saigon

Agosto 10, 2009

Meu, acabei de pensar uma coisa aqui:

Quando eu era criança, eu cantava com a minha mãe a música do título mó empolgada… Tantas palavras, meias palavras, nesse apartamento um pedaço de Saigon. Só que nessa época eu ficava pensando o que seria um pedaço de Saigon. Seria uma comida (‘Chefia traz meio quilo daquele Saigon esperto’)? Seria uma peça de roupa (‘Ai cara rasgou o meu Saigon sobrou só um pedaço’)?

Aí eu descobri que era uma cidade, e foi o fim de toda uma inventividade pueril.


Manual

Agosto 3, 2009

Atenção, pessoas.

Alguns leitores me pediram pra ‘repostar’ alguns posts que fiz, como o Brás Pulgas, a Elzinha e o Mazzaropi foi para o Céu.

Eu não vou fazer isso.

Me desculpem a indelicadeza, mas caso queriam rever esses posts é só procurar nos arquivos, ou digitar os nomes ou parte do texto nessa caixinha branca aqui ao lado, onde está escrito PESQUISAR. Pode ser?