A ironia é mesmo a deusa que cerca o nosso dia-a-dia.
Terça-feira passada foi o dia do caos da chuva em São Paulo. Eu tinha uma entrevista marcada para as 08:00 da manhã, numa empresa próxima ao Terminal Barra Funda. Saí da estação com meia hora de antecedência, tranquila. Ao sair, a rua parecia um rio, ou melhor, a beira de uma praia, já que quando algum caminhão conseguia passar pela rua formava ondas que aprazivelmente nos molhavam, os pedestres ilhados aonde era possível se molhar menos, se é que era possível molhar-se menos.
Pois bem, numa performance digna de Indiana Jones eu enfiei o pé em poças de profundidade suficiente para molhar meu pé inteiro, mesmo de bota (vale dizer que a água estava mais ou menos com a aparência de um café com leite estragado, com manchas de gordura na superfície); andei equilibrada em tartarugas (não as de verdade, as sinalizadoras); escalei pontos de ônibus e quando enfim cheguei na altura do meu destino, surpresa: o único lugar inalcançável era justamente lá, com a água chegando quase na altura dos joelhos.
Não tive outra alternativa se não ir ao posto de gasolina na esquina do lugar e esperar a chuva passar, idéia que eu e outras muitas pessoas tiveram. Aproveitei para tomar o café da manhã: uma empada e uma Coca-cola. Já deveria saber que Chloé + Catchup são coisas que não se misturam sem um resultado desastroso, que no caso foi a minha camisa toda manchada. Pedi um pano ao atendente da loja de conveniência e ganhei também uma história motivacional de uma pessoa que também passou pelo mesmo perrengue e hoje é gerente de banco. Encarei como um sinal do destino e resolvi esperar.
Fiquei no posto até as 10:30 e fui para a entrevista. De toda empresa (que não é pequena), apenas seis pessoas haviam conseguido ir trabalhar, e nenhum candidato conseguiu comparecer a entrevista exceto eu. Fiz a entrevista, suja de catchup, com barro em toda a minha bota, e muito mais extrovertida do que o normal (que já é muito), uma euforia desnecessária causada pela conquista de ter conseguido me locomover 500 metros em São Paulo, note-se a bizarrice do fato de isso ser um motivo de comemoração.
Ao sair, tinha comigo R$ 12,30 e estava sem créditos no celular. Resolvi colocar R$ 10,00 e depois sacar mais dinheiro para ir embora (o trem custa R$2,55 aqui). Coloquei créditos, mas no número da minha mãe. Eu recebi uma mensagem do meu padrasto agradecendo a recarga e, indignada com o ponto que a minha desatenção conseguiu alcançar, rumei ao Terminal.
Eu já devia saber que naquele dia quem regia o meu signo era Murphy, quando fui sacar tive a alegre surpresa de que TODOS OS TERMINAIS DA BARRA FUNDA SÓ SACAVAM NOTAS ACIMA DE R$20,00, e a minha conta tinha apenas R$15,00. Faltavam 25 centavos pro dinheiro da passagem. Nunca havia pedido dinheiro na vida, mas como até os finalistas do Aprendiz já tiveram que fazer isso, porque eu não faria?
Achei que o jeito mais fácil de conseguir seria comer em algum lugar, pagar com o cartão e pedir uma moedinha para a pessoa do lado. Plano perfeito. Pedi novamente uma empada e uma coca (já deveria saber também que provavelmente EMPADA e COCA-COLA deviam ser os alimentos não-recomendados pelo meu horóscopo) e perguntei se o estabelecimento aceitava VISA. Aceitava, mas só Visa. Enquanto eu comia, pedi dinheiro a uma senhora que também comia uma empada. Disse que nunca havia pedido dinheiro na vida, que havia acontecido um imprevisto, e ela me deu, com uma cara de assustada, mas deu. Satisfeita com o último obstáculo superado, fui pagar minha empada, e, de novo estupefata com a minha burrice, descobri que meu cartão era MASTERCARD e eu não tinha mais um puto no bolso. Todos ao meu redor tinham visto eu pedindo dinheiro para a mulher e eu nem preciso descrever aqui a cara com que todos estavam me olhando, certo? A balconista tentou me ajudar, dizendo que eu poderia pagar amanhã, o que foi descartado porque eu teria que fazer uma viagem de 1:20h para pagar R$ 3,50. Tentando pensar numa solução e com uma cara de desespero que nem proposital foi, um homem que tinha acabado de ver eu pedindo dinheiro se ofereceu pra pagar. Fiz a maior cara de tacho do mundo e tentei negar, mas dadas as circunstâncias, não houve muito o que discutir e eu aceitei. O sujeito deve ter pensado que eu era uma mendiga-chique, já que eu estava maquiada e de camisa social, embora ainda manchada de catchup.
Deixei pro final pra manter o suspense, mas consegui o emprego, provavelmente o entrevistador se impressionou com a minha epopéia, ou talvez tenha ficado apenas com dó.
A ironia, que foi o detalhe mais singular de todo esse dia, se deu quando eu lia uma coletânea de crônicas de Drummond no posto de gasolina: logo a primeira que eu li falava sobre uma moça na chuva, de sua graça e movimentos leves e do prazer de se caminhar na chuva apenas para apreciar a chuva. A introdução dizia que aquela crônica só faria sucesso se naquele dia estivesse chovendo.
Pois bem Drummond, estava. Mas você me ajudou a saber olhar pros pingos outrora traiçoeiros e conseguir enxergá-los belos. E enfim sorrir em meio ao caos. Sem parecer piegas, claro.
Escrito por Chloé
Escrito por Chloé
Escrito por Chloé 

