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Os dançarinos

Acima de tudo e antes de tudo, os dois dançam.
Mesmo quando ela acorda suando de madrugada
Assustada com um pesadelo envolvendo naves e explosões
E mente
Ainda assim no espaço eles dançam como se a gravidade fosse
Só mais uma das leis de merda inventadas pelos homens

A dança não
Ainda que sem música e sem permissão
E sem ritmo de ambas as partes
E sem vontade até
A dança segue alheia a protestos e cartazes

Os dois dançam sorrindo e chorando às vezes

Você e ela são ruins demais nisso, padawan.

Valentino

Eu não queria, mas eu fiz uma balada pra quem não me quis.

Privado

Ai, a insônia. São 02 da manhã e eu tô acordada. Tá, e daí?
Já sei que vou acordar amanhã puta por ter dormido pouco demais, que vou ficar balançando a cabeça por causa de pequenos mergulhos no sono se por um milagre eu sentar no metrô.
E a noite muito provavelmente, esse mesmo ciclo vai se repetir, com o agravante de que eu tenho roupa pra lavar. Menos mal.

Mas sei lá. Eu gosto de você. E preciso muito te falar isso, não como quando eu falo brincando ao te ouvir perguntando isso pela milésima vez num tom de quem diz “você não me deixa em paz”. Eu gosto de você e não quero que você saiba disso pra dizer que gosta também – cá entre nós, é bem claro que não é isso que vai acontecer. Quero que você escute pra entender que não quero você por perto.

Todas as brincadeiras, sorrisos e conversas não são pra mim só brincadeiras, sorrisos e conversas. Tudo é motivo pra minha cabeça trabalhar, imaginar que é recíproco o que eu sinto. E tudo isso me deixa ainda mais brava por ser o clichê do século: a mina/o cara que gosta do/da filho/filha da puta.

Entende? Eu gosto de você, sai de perto de mim, você só vai me fazer mal. E se me fazer mal não te importa, pensa que eu sou uma maluca que gosta de você. E quem quer alguém maluca e clichê pegando no pé por perto?

Me erra. Esquece a zueira. Queria muito ser uma voz na sua consciência dizendo “e aí cuzão, vai ficar aí parado?”. Mas eu só tenho força pra dizer: fique parado. Sai. Eu preciso de paz.

Quantas situações hipotéticas eu criei. Quantas vezes eu não achei que agora ia. E quantas vezes eu já sabia que não ia ser. Sabia que era só mais uma que tava lá mesmo e era o que tinha pra hoje. E mesmo assim abri o olho pra mudar de posição na cama e dei uma espiada do meu lado pra aproveitar porque vai que era a última vez que eu te via ali. E um dia foi mesmo. Logo o pior de todos. Logo o dia em que não deu pra dormir mais tempo. Logo o dia em que você não pegou minha mão dormindo e entrelaçou os dedos nos meus, num gesto que jamais repetiria sóbrio.

Eu bebo demais, não sou levada a sério, não tenho não me toques na hora de sair só por sair. Já até pensei que isso talvez não te deixasse ver que porra, eu gosto de você. Mas não é isso, você sabe. E gosta de me ter por perto. Ter alguém pra comer quando nada melhor estiver por perto. Tão cômodo quando a gente sabe que é só chamar que vem. Eu gosto de você, e não aguento mais. Não acho que levar um não vai afastar de vez esse angu de caroço, mas pelo menos vai me fazer ter a certeza de que não. Não.

Diz com todas as letras que não quer nada e sai de perto. Mas não fica lembrando das conversas que a gente teve bêbados antes de dormir. Não fica insistindo pra eu lembrar do que a gente disse um pro outro como se fosse a coisa mais engraçada do mundo. Não me dê tapas na coxa quando eu tiver sentada, não desamarre meu cadarço e não se surpreenda por eu gostar de filmes de menininha. Não me mostra como seu cabelo fica quando o vento bate deixando ele de lado e não me conta que você tem vontade de ir na Sala São Paulo. E principalmente, por favor, não enrola almondegas comigo.

Quando eu tiver toda simpática e você souber que eu quero – porque eu sempre vou querer -, lembra do quanto eu gosto de você. Daí, eu já sei, você vai se afastar. E é justamente isso que eu preciso. Sai.

Bigorna

O problema é o sapato que você teima em desamarrar. E por que diabos você repara no meu  peso, nas minhas roupas e no meu corte de cabelo? Você sabe que é cruel, e talvez por isso mesmo continue. Deve ser minha cara, devem ser as minhas mãos que não disfarçam a ansiedade e eu não sei nem como gesticular perto de você, a posição da boca pra não parecer que ela tá te chamando, se esforçando pra manter uma conversa normal e civilizada. 

E porque você faz questão de participar dos meus assuntos? Nem somos tão amigos assim… Deve ser porque você sabe que eu gosto. Será que sabe? Com tanta gente no mundo, logo você, um trouxa… Um cara sem sal…

Depois de braços melhores, depois do entrosamento e do aconchego que eu nunca senti nos nossos encontros embriagados, porque essa maldita tremedeira? Dias, semanas, até meses bem. Mas, às vezes, basta só uma noite pra todo um trabalho árduo ir por água abaixo. E o “e se?”, alimentado só por mim, passa a tomar conta da minha cabeça de um jeito tão ridículo que me faz pensar em você bastante antes de dormir só pra ter mais chances de sonhar com a gente.

Uma babaca completa. Mas não é isso que somos todos nós?

A separação

Ele arrumou as malas e fez questão de não a esperar acordar. Pra rechear as valizes, escolheu preferencialmente o que sabia que ia fazer mais falta pra sanidade dela. Não porque a odiasse, mas queria dar uma lição nela, queria mostrar que era importante. Se essa pequena achava que podia ignorar minha existência comigo bem ali do lado, ia ver só. Quero ver se virar sem mim.

Ela acordou e, acostumada que estava a ignorar solenemente sua presença, fez o de sempre. Levantou, escovou os dentes. Ao sair de casa, percebeu que o celular tinha ficado ao lado do travesseiro. Não voltou pra buscar. Ao voltar do trabalho (que já não tinha sido lá essas coisas), encontrou um amigo e se impressionou ao ver no seu braço esquerdo uma tatuagem que não estava lá antes. “Mas eu tenho essa tatuagem há anos!”, disse o cara.

Ele, mesmo longe, sabia o que estava acontecendo. Sabia porque, ao deixá-la, já tinha a certeza da falta que faria. Por isso, sentia agora a satisfação de finalmente afetá-la, a satisfação que todos sentimos ao perceber que nossa ausência é sentida mesmo por alguém que nunca demonstrou se importar com a presença. Aliás, muito pelo contrário, ela fazia questão de demonstrar que não precisava dele, em cada pequena atitude do dia-a-dia, como escolher passar o sábado vendo TV como um zumbi e ignorar a fome que ele sentia. Agora, observando de longe com um drink na mão, ele lembra com quase dó (dela, claro), de quando pedia que ela pelo amor de deus pendurasse um quadro na parede, saísse pra ver um filme e ela mal olhava, se é que ouvia.

Ela não sabe mais pensar. Tem a consciência disso. Embora a consciência seja apenas um reflexo quase institivo nesse caso, já que ele não está mais lá para ajudá-la nos momentos de fazer conexões e reflexões, ela tem certeza de que algo lhe falta. Essa sensação é a mesma de um animal irracional que vê sua casa destrúida de repente: ele não raciocina que lhe tiraram algo, mas sabe que esse algo deveria estar ali. Ela sente a sua falta quando se vê cometendo erros primários de português, mas principalmente quando abre a geladeira e esquece subitamente o que ia pegar. Se sente mal, inquieta, mas não vê que é justamente ele que lhe falta.

Ele não quer redenção. Não espera que ela lhe procure. Ela já perdeu a capacidade de implorar por sua volta. Ele não busca em outros corpos o que não encontrou nela. Busca em copos, a mesma coisa que ela faz, inconscientemente, quase um espelho dos movimentos dele.

Ela mal conseguiria entender se presenciasse a seguinte cena: ele dançando livre, longe dos avisos e das cobranças. Leve, quase flutuando.

Ele ri. Justiça foi feita.

Acabou, acabou! É do Brasil!

é teeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeetra né gente

Eu pensei que todo mundo fosse filho de papai noel. Mentira, eu nunca pensei isso porque nem me lembro de ter acreditado um dia no bom velhinho.

Cá estava eu com os meus botões lendo o post-balanço de 2010 e mentindo descaradamente para mim mesma sobre como esse ano eu ia fazer uma crônica legal com o tema ~espírito natalino~. O problema é que meu humor de natal tá mais pra isso aqui esse ano, então eu resolvi fazer o que eu faço de melhor: expor minha vida indevida e indiscriminadamente.

Eu já ouvi que sua virada de ano determina como será o ano todo. Isso nunca deu certo, porque eu estava meio bêbada na maioria das últimas viradas e se eu ficasse assim ininterruptamente o resto do ano eu não ia ficar choramingando tanto assim. Nunca deu até esse ano, porque eu comecei 2011 fazendo o que eu faria durante muitos dos outros dias: trabalhando. Isso mesmo: vendo o Fiuk “cantando” I Got a Feeling (pelo menos a do Black Eyed Peas e não do Beatles) pra uma multidão de gente e tomando champanhe barato na sala de imprensa. Não que eu possa reclamar, já que tirei a maior onda e o trabalho de 2011 até que valeu a pena.

Falando em trabalho, esse ano eu realizei um dos sonhos da minha vida (nossa, como isso soou coxinha). Consegui um estágio na Abril, ou você pode chamar também de o prédio mais sensacional da Marginal Pinheiros. Tenho pai médico, mãe enfermeira, padrasto psicólogo e jurei que nunca ia trabalhar com saúde, mas adivinha só pra que revista eu escrevo? Sim, você acertou. Isso não é ruim, pelo contrário, trabalhar escrevendo é tão sensa que eu não posso nem falar disso muito tempo pra não parecer efusiva demais.

Dois mil e onze… Fiz 21 fucking anos e moro sozinha. Com mamãe longe por iniciativa própria (dela, é claro. brincadeira mãe ~ não chora), pago condomínio, luz, internet, lavo minhas próprias calcinhas e sei até fazer feijão. Passar por isso foi uma das melhores coisas que aconteceram comigo e até hoje, 8 meses depois, eu dou risada sozinha de pensar que no fim do dia vou chegar na minha casa. Mãe, irmã, padrasto, amo vocês, mas feels so good to be free.

Voltando às letras e frases, esse ano eu montei um blog com dois amigos e aprendi que, mesmo falando de neurônios e glândulas hormonais, não preciso deixar de escrever sobre livros e músicas que eu gostaria muito e muito que você conhecesse. Veja lá se não vale a pena perder uma horinha do dia com tantas obras primas. Dostoiévski, Chris McCandless e Aldous Huxley conseguiram me dar um nó na cuca esse ano, mas você pode saber mais sobre isso lá no blog. Muitas vezes eu me senti como se tivesse em outra época, mergulhando em vidas tão diferentes. Hoje, por exemplo, acabei de ressuscitar cheia de saudosismo (injustificado, já que eu era uma pirralha) da década de 90 e terminei Heavier Than Heaven, a biografia do Kurt Cobain.

Esse ano eu me sinto também assim. Um pouco velha demais. Não entendo mais porque fazer faculdade, a não ser pra esfregar na cara dos meus professores coxinhas que eu descolei um estágio da hora e não graças a eles. Até mesmo porque eu fui censurada na minha faculdade porque eu escrevi numa crônica que gostaria que o Geraldo Alckmin fosse “ENCOXADO POR UM ATOR PORNÔ BEM DOTADO”. Sério mesmo. Ainda por cima briguei com a reitoria e contra um sistema lento e cruel em prol dos alunos. Ano passado eu achei que me envolver num movimento político estudantil era um caminho pra mudar alguma coisa, pelo menos numa micro-esfera. Um ano depois, acho mesmo que não vale a pena. Não recomendo.

Voltei aos quilos excedentes de três anos atrás, aos cabelos curtos de oito anos atrás, terminei um namoro e me sinto feliz. A última vez que eu estive solteira eu tinha 17 anos. Era preocupada com saltos e baladas onde pudesse achar caras legais. Agora é diferente. Tô saindo de óculos, os tênis de sempre e o foco é ir onde os amigos estejam e a música seja legal. Agora é diferente. Não preciso de novos lugares, novas pessoas a todo momento. É diferente porque cada dia e cada sensação parecem novos, por mais clichê que isso pareça. Acho que voltar a ler como há muito não lia me fez escarafunchar cada novidade que descubro em mim. Agora eu também falo sozinha e discuto desde essas descobertas até se vou ou não lavar a roupa hoje sem sentir vergonha nenhuma disso.

E pra 2012 a única coisa que eu peço (além de TERMINA LOGO POR FAVOR) é que continue assim. Diferente.

 

 

 

 

 

 

Tô estudando uns projetos…

Eu e a minha amiga Mariana compartilhamos de vários interesses: boa música (tirando a parte que ela ouve Rammstein), bons livros, bons drink, metrô e piadas ruins.

Pensando nisso, nos juntamos ao namorado dela, Caio Neumann, para criar o Jam Sessions no Metrô, um blog para compartilharmos livros e CDs que ouvimos durante nossas árduas trajetórias no transporte público. Olha aí que belezinha!

Escrevo lá toda quarta e hoje é meu post de estréia. Fala sobre meu herói, o bom e velho Bukowski.

Vai ver, já que post novo por aqui tá mais difícil do que dinheiro na minha conta!

Sub-submundo

Cá estava eu lendo blogs sobre subcelebridades (é gente, me processem) e me acometeu um pensamento sobre os ex-bbbs.

Já tivemos ex-bbb morto (dois), ex-bbb que virou apresentador da Rede TV (dois também), ex-bbb que virou atriz da Globo (duas também, eu acho), ex-bbb que perdeu as pernas e ex-bbb que teve o cabelo incendiado.

Ex-BBB que participou de concursos de comida

Pensando nisso, elaborei uma pequena lista de coisas que os ex-bbbs podem fazer para virar notícia de um jeito diferenciado. Note que algumas já foram usadas por outras celebridades, mas não custa nada tentar:

– Marcha dos Ex-BBBs: por notas melhor escritas no Ego, podem usar o vão livre do MASP. (Eu sei que já fizeram a marcha das vadias gente)

– Casamento gay: acho que pode ser o Dicésar e o Serginho Orgastic

– Show de stand-up comedy: “sabe o que me deixa puto de ver o bbb? é que eu já fui um” (risos)

– Virar militante do Greenpeace contra a caça das baleias

– Virar freira, padre ou pastor: “veja! natália diz: ‘pastora mas não capada’ ”

– Namorar jogador de futebol: sério gente, mais de CEM EX-BBBs e NINGUÉM namorou um jogador de futebol até agora?

Se alguém já realizou um desses me desculpem galere!

De batatas e amor

Esse texto meu foi originalmente publicado na edição de outubro da Revista Trip, em um caderno colaborativo sobre o futuro. O que saiu impresso era menorzinho, então essa é a versão antes de ter que encurtá-la.

Por mais que o homem já tenha inventado descascadores de batatas, ainda assim é bem chato descascar esse tubérculo (e, olha, essa palavra ainda existia em 2010). Ainda mais quando, no nosso caso, nem isso tem, só uma faca cega que você diz ter amolado.

Do meu lado está você, destrinchando um frango, ou talvez já esteja na fase de temperá-lo. Você me pede pra cortar alguns alhos, mas parece se comover com meu esforço na cozinha e me ajuda com eles também.

Um gole de cerveja entre uma facada e outra, o tempo de espera até o fogão fazer a parte dele. E o nosso almoço tá na mesa. Mesa mal-colocada, mas quem pode dizer olhando agora que diferença há nisso pra um almoço à beira-mar com camarões do tamanho de uma cabeça humana?

Depois de uma quantidade de comida que nunca seria adequada pra um almoço chique, o colchão de casal jogado no chão da sala parece mais com uma espreguiçadeira de hotel de luxo. Você consegue ver que a nossa TV ainda era meio velha? Nem canais pagos tinhámos! Mas olha aí a nossa cara de quem não se importava com isso.

Há dez anos atrás, era assim que nós vivíamos. Meio que imunes a um monte de convenções, rituais e protocolos de amor e convivência. E agora? Me conta como é. Quero saber se posso sonhar com esse dia ou se é melhor aproveitar o hoje que parece que ainda nos resta.

Ainda cozinhamos juntos ou você senta pra ver TV enquanto eu me preocupo em te agradar? Umas cervejas e um colchão são o suficiente para nós ou agora nos ocupamos em restaurantes caros e passeios em shoppings? Me diz, temos filhos? Eles têm seus olhos azuis meio verdes? Eles são bagunceiros, introspectivos? Será que tem a sua mordida cruzada ou meus graus de miopia? Ou será que só você teve filhos e eu virei uma solteirona workaholic?

Será que eu ainda acordo linda como você costuma dizer agora?

Não sei se em 2020 ainda existe romance, caso contrário toda esse sentimentalismo vai perder seu sentido (ainda existe sentido? e sentimento?). Mas tente resgatar as lembranças dessa tarde. Da felicidade que hoje temos de sobra. Da sua mão ainda cheirando a cebola e alho percorrendo meu corpo. E, se estivermos atravessando momentos díficeis… lembra que, pelo menos por 48 horas, tudo foi extremamente fácil.

Invasão de propriedade

Eu que posto muita coisa non-sense vou fazer um pequeno desabafo:

Acabei de parar num lugar coberto (está chovendo muito em ASao Paulo hoje) e uns 30 segundos depois um mendigo veio com uma cara de desânimo “Você pisou no meu papelão, você pisou, você pisou”.

E, se lamentando, começou a procurar o que havia sobrado de seco na sua cama. Eu pedi desculpas e saí. Mas nem olhado pra baixo eu tinha antes de pisar, e me senti invadindo, realmente, uma propriedade. Os colegas de trabalho do meu lado fizeram muito bem o papel de fingir não ver o mendigo que se lamentava em voz alta, certamente constragia a conversa sobre viagens pra europa, e discretamente pisaram fora do papelão.

Um pedaço de papelão que é uma cama e outro que é o cobertor.

E a gente se importa com umas coisas tão pequenas.