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Geração perdida

Somos uma massa falida. O teste, o intervalo entre gerações passadas e o que vem amanhã. E o que vem amanhã? Será que vem uma máquina de fazer carinho? Já me contaram até que os dedos vão encurtar porque com as pontas deles vai dar pra fazer tudo. E pra entrelaçar as mãos?


Sou uma perdida abraçando com gosto a causa da juventude transviada. Dos que não valem nada.  Me agarro a um tempo que não vivi pra justificar minha inconsequência e prefiro fechar os olhos pras preocupações. Deixa pra outra hora…  Uma perdida num texto perdido, juntando fragmentos de pensamentos que são só lampejos no meio da correria que mata qualquer processo criativo.

É por isso que eu topo qualquer desvio no caminho. Prefiro garantir a cerveja na geladeira do que um creme novo pra passar no rosto. Não perco a oportunidade de fazer algo que resulte em uma ressaca moral que se mistura à ressaca normal. Não me arrependo. Esse é meu grito de liberdade. Dias conturbados entre fluxos, processos, textos, pautas, sono, viagens de metrô e noites mal dormidas.

Somos uma massa falida. E o que vem amanhã? Tanto faz…

A casa da esquina

De repente, eu não sou mais uma criança metida a sabichona discutindo com minha bisavó malufista sobre política. Não tenho mais tamanho nem parentes velhinhos para aturar essa minha inconveniência.

A casa da esquina agora é só uma casa na esquina. O gato colorido que não morria vai dar lugar a uma placa de vende-se (talvez). As bolas grandes e iluminadas espalhadas pelas árvores do jardim no Natal não vão mais ter espaço entre o matagal abandonado e as rosas vão morrer por falta de carinho.

No segundo andar da casa da esquina nunca mais duas adolescentes malucas vão fugir se agarrando pelas heras que alguém vai precisar cortar antes que engulam a casa. Não vai mais ter banheira antiga para nenhum neto deslumbrado ir à desforra.

O jogo de resta-um podia mudar de nome. Agora falta-um.

Um dia na minha vida

Prezado Sr. Excelentíssimo Governador Geraldo Alckmin

Essa carta não é um choramingo de uma pessoa que começou agora a se aventurar na vida. Ando por São Paulo e regiões há algum tempo e só quero te propor um desafio: que o senhor viva um dia da minha vida.

Gostaria que o senhor ganhasse o meu salário uma vez, o que certamente não seria suficiente pra pagar nem um sutiã de sua mulher. Ou então que levasse uma marmita ao Palácio do Governo, sem direito a vale refeição, e me contasse como é não almoçar em restaurantes com preços exorbitantes nos quais o senhor não precisa pagar a conta (pois quem paga sou eu).

Claro que o senhor sairia do Palácio para uma reunião do outro lado da cidade com seu terno italiano e seu sapato engraxado, disso eu não te privarei. Mas vá de transporte público às sete da manhã, talvez chegue a tempo se a reunião estiver marcada para às onze. Talvez (e eu espero muito que isso aconteça) o senhor sinta muita raiva quando, andando com sua roupa toda suada procurando o endereço certo, passar um helicótero sob a sua cabeça, desfrutando uma realidade que pelo menos hoje não é a sua.

Quando o senhor chegar no trabalho, exerça bem as suas funções. E não se esqueça que, caso não chegue na hora, seu patrão (que no caso serei eu), dificilmente entenderá o seu atraso, não importa se o ônibus quebrou, se os ferroviários entraram em greve ou se o senhor, tão desacostumado com esse contato homem-a-homem (não o das eleições, o de verdade), passar mal no metrô apertado. Apertado não, porque segundo o senhor está tudo excelente. Seria uma experiência inesquecível, tenho certeza, se andando de trem o senhor ficasse bem na frente de um ator pornô bem-dotado.. e sentisse as delícias de ser encoxado por alguém que ainda nem passou desodorante.

Falando de transporte, não sinta raiva se a linha do metrô que precise usar estiver em fase de testes há mais de seis meses e o senhor perca 30 minutos numa fila da Ponte Orca. Um dia, segundo adivinha quem?, tudo vai funcionar perfeitamente. Agarre-se nessa esperança e vá com tudo!

Caso consiga chegar a tempo na faculdade (particular, que o senhor pagaria com o seu salário, sobrando cem reais pra viver o resto do mês), não se esqueça de passar no Diretório Central dos Estudantes e guerrear um pouco com os dinossauros burocráticos em prol dos estudantes que dificilmente se lembrarão de você daqui a seis meses. Ironia, não? É bom pra revigorar um pouco os ânimos.

Na hora de ir embora, não que eu te deseje tanto mal assim, mas tomara que chova. Se o pé do senhor ficar molhado, agradeça, afinal, água até as canelas é melhor do que água no umbigo e em breve vários piscinões serão construídos. Gostaria que o senhor sentisse fome também, mas tudo estivesse um caos e justamente nesse dia o senhor só tivesse dez centavos na carteira. Dessa vez o meu dinheiro não poderá financiar nem uma coxinha. E, se o senhor demorar cinco horas a mais pra chegar no Palácio, anime-se, dona Lu estará lhe esperando com o jantar, que será também a marmita de amanhã.

Na verdade, pensando bem, eu desejo que não seja só um dia, sejam dois. Só pra ter o prazer de ver a cara do senhor sabendo que no dia seguinte começa tudo outra vez.

Amor em tempos de trilhos

Ela era a voz do metrô. Ele a imaginava alta, esguia, sem se importar se talvez ela não fosse realmente assim… No começo, ele achou que estava ficando louco, que aquela voz tão especial não podia estar falando com ele, diretamente com ele. Mas a coisa foi crescendo até que chegou num ponto que a ouvir era a única alegria, o único alívio de uma vida exaustiva, mecânica, artificial.

Via de regra, entrava no vagão e, num movimento avesso ao da maioria, tirava os fones de ouvido, parava de ler o jornal e ficava concentrado de olhos fechados. Quem olhasse distraído podia jurar que estava dormindo em pé. Mas estava imaginando. Estava sentindo a voz entrando em casa poro do seu corpo.

Na sua cabeça ela lhe sussurrava inúmeras juras de amor eterno, descrevia paisagens de lugares bem distantes daqueles túneis escuros que juntos percorriam todos os dias. Lugares nos quais a voz estava condenada a permanecer

Na sua cabeça eles conversavam. Mal podia esperar pra chegar no vagão e contar pra ela como havia sido o dia anterior, os sonhos em que ela esteve presente a noite inteira.

Quem olhava não imaginava. Um homem de olhos fechados. Dormindo em pé? Passando mal? Provavelmente ninguém nem prestava atenção.

O homem não sabia que a voz era uma senhora casada, de óculos e gordinha. Não sabia também que aquela voz sempre sonhara estar em outros lugares. Comerciais, programas de rádio, dublagens… Todos os sonhos resumidos a vários quilômetros embaixo da terra e avisos ignorados pela lotação que impede que o que ela fala seja de fato ouvido. Exceto ele, é claro, que ouve e ouve cada palavra, cada jura de amor, cada música que ela canta pra embalar sua viagem…

Ninguém entendia quando ele sorria de olhos fechados ao aviso de que o metrô parou entre uma estação e outra. Mais tempo juntos.

Ninguém entendeu porque hoje alguém pulou na linha do trem sorrindo…

O surto da rainha

A rainha Elizabeth meio que se cansou daquela papagaiada toda que rolava em sua volta. Enjoou daqueles guardas de cabeça de microfone gigante que eram teoricamente seus guardas. Enjoou do presidente dos Estados Unidos babando em seu ovo (figurativamente falando) e também de dar títulos da nobreza a gente que nem o Elton John.

Teve uma idéia brilhante. Ligou para o velho amigo dos chefões do mundo, Bin Laden, e pediu umas aulinhas. Ele se empolgou e quis participar, mas essa era uma missão exclusiva da rainha e quem iria discutir com ela!

Então aconteceu, no aniversário do presidente francês Nicolas Sarkozy e da sua cara de caricatura. A rainha chegou pomposa, usando jóias que dariam pra comprar umas cem crianças chinesas. No meio da festa, na hora de cortar o bolo, ela pediu a atenção de todos e levantou seu vestido.

Todos ficaram focados no tamanho da sua calcinha e nas pelancas em volta dela, e então a rainha apontou o cinturão em volta dela, tirou as granadas e saiu correndo, entrando num avião enquanto a mansão francesa explodia ao fundo. Ninguém saiu, todo mundo achou que era brincadeira da rainha, porque era a rainha né?

Hoje goza a vida com 4 michês que a atendem em tempo integral numa ilha mais secreta do que a de Lost. E todo mundo comenta até hoje sobre o surto da rainha-bomba.

A revolução das máquinas

(ou algum outro filme que certamente a gente já viu)

Fui ao banco…Quer dizer, tentei ir…

Os caixa eletrônicos não estavam funcionando, pelo contrário, exibiam aos clientes que tentavam utilizá-los mensagens muito agradáveis recheadas de palavrões.

O twitter resolveu mudar o limite de tweets pra um por dia e não tem Deus nenhum pra fazê-lo mudar de idéia, o que deixou os probloggers e antenados malucos. Até o Obama de repente parece um pouco mais incompetente já que não pode twittar sobre suas viagens e mudanças no país.

O google não funciona há mais de uma semana e por isso milhares de trabalhos de faculdade não estão sendo mais entregues. Não dá pra fazer chamada nas aulas, porque o sistema gera faltas automaticamente e por isso os estudantes ja faltaram o suficiente pra uns cinco anos.

O GPS não funciona mais e os guias vendidos em bancas estão esgotados por causa da procura repentina, por isso os taxistas resolveram protestar e pararam a Av. Paulista. Apesar do protesto, todos os carros continuam indo pra lá, porque não tem internet pra divulgar o protesto e as rotas alternativas.

As redações dos jornais estão revezando jornalistas entre as três máquinas de escrever que tinham esperando a decomposição no almoxarifado, mas já foram gastos 50km de fitas sem que ninguém conseguisse utilizá-las.

Os meninos de calça colada á vacuo no corpo e cabelos ensebados não conseguem mais fazer sucesso, sem myspace e youtube. Não preciso dizer que ninguém mais começa a namorar nem faz mais amigos. Não há mais redes sociais.

Os jornais da TV dizem que esse é o apocalipse… Talvez seja mesmo, mas sem um perfil pra deletar, pode ser que ninguém ache que realmente deixou de existir, o que causaria um monte de zumbis andando por aí…

A sombra

Ela era alta, vestida num shorts puído que mostrava bem suas pernas escuras, com manchas cinzas ressacadas. Nos pés, nada, apenas a sola grossa e com rachaduras servia de sapato.

Usava uma blusa verde que deslizava pelos ombros e notava-se nitidamente que não usava sutiã. Cabelos crespos bem curtos emoldurando um rosto onde se esperava que houvesse uma expressão carrancuda de quem muito já apanhou (da vida e dos outros), mas havia um sorriso. Bem provável que fosse de desdém, aquele sorriso com a boca ligeiramente aberta e a cabeça fazendo meneios para trás.

Talvez sorrisse por estar assim, totalmente diferente das pessoas que passavam pelo terminal àquela hora da manhã pelo terminal, arrumadas e apressadas para ir trabalhar.

Talvez sorrisse porque todas essas pessoas que passavam pensavam que ela tinha algo a ver com a quase confusão que se formara a alguns bons metros dela: um incomum contingente de policiais que se encontrava ali, dificultando a passagem de todos.

Tinha ela participação nesse quase reboliço?

Ou seria ela só um sorriso que passou desapercebido?

De Bares e Estereótipos

“Poxa você é uma mulher que gosta de bares, escreve sobre isso!”

Legal, eu sou mulher, eu gosto de bares, eu não gosto de caipirinha de saquê e todas essas bebidas homossexuais. Também não vou a bares maquiada e produzida procurando carinhas descolados e bonitos. Mas sou normal, haja vista que comecei esse texto pra criticar um estereótipo e estou criando vários outros.

No começo era meio dificil de ser aceita pelos amigos dos meus namorados e pelos amigos de escola não como uma amiga-para-ver-nos-lugares-onde-as-mulheres-podem-ir (exclua dessa relação clássicos em estádio de futebol, botecos sujos e campeonatos de videogames), mas como um amigo com quem você pode fazer um campeonato de quem consegue abrir mais latinhas de cerveja com o dente (calma mãe, é só um exemplo!). Depois as coisas melhoraram, c0m um pouco de esforço e fingindo que não via olhares tortos, consegui não ser vista mais com tanta estranheza. Pelos homens claro, porque pelas namoradas dos amigos foi sempre a mesma coisa. Só piorou.

Com as mulheres é um ciclo: primeiro elas não falam com você, só de você. Depois elas acham legal você ser diferente e tentam se aproximar. Aí então elas não conseguem se adaptar e caem fora, e voltam ao primeiro passo.

Nos relacionamentos costuma funcionar de um jeito engraçado: primeiro ele acha legal você beber como ele, falar palavrão e saber elogiar uma mulher bonita, depois ele deixa de gostar quando o time dele perde e você não consegue deixar passar sem uma piada, quando a mãe dele começa a comentar sobre como a nova namorada dele é ‘diferente demais’ ou quando você ganha dele no videogame. Afinal, toda sogra espera que a mulher certa ‘leve o filho pro bom caminho’, por mais que o bom caminho seja uma vida entediante e da qual o filho dela facilmente enjoará.

Eu gosto de sinuca, das conversas das mesas dos bares, de falar de futebol como se entendesse demais do assunto, de ir ao estádio e sair de lá rouca de tanto gritar palavrões. Ás vezes não consigo me encaixar em rodinhas de conversas femininas devido a “rotatividade” dos assuntos (cabelereiro, preço dos sapatos e meu-namorado-é-perfeito, com a variante meu-namorado-é-um-bosta). Não quer dizer que eu não saiba me comportar, que eu não seja uma mocinha quando necessário, que eu não chore em filmes românticos, que eu não goste de maquiagem e de moda. É importante definir isso. O que nã0 é importante é definir estereótipos e clichês femininos, e eu sou uma prova viva disso.

Precaução

Cuidado, cigarro mata

Cerveja mata

Não lavar as mãos mata

Torresmo mata

Trabalho demais mata

Bungee Jump eventualmente pode matar

Andar de avião também

Mc Donalds mata

Atravessar fora da faixa, adivinha, mata

Viver também mata, cuidado.

Sentimentalismo barato

Hoje eu gostaria que você sentasse aqui comigo. Trouxesse duas cervejas e o mar, pra conversa fluir um pouco melhor.

Caso você resolva vir, gostaria também que tivesse um bocado de paciência: pode ser que eu tagarele, pode ser que eu fale sobre o tempo ou pode ser que eu fique apenas me justificando antes de falar mesmo o que eu preciso falar, que eu nem sei direito o que é. Vale avisar que esse tipo de comportamento é bem típico meu.

Por conta de não sabermos direito o tempo que será gasto, escolha para você aquela cadeira de palha confortável na qual você nunca pôde me embalar,  ou será que fui eu que nunca quis ser embalada? Quem sabe no ritmo dela a gente consiga se acertar.

Hoje eu gostaria que o dia não acabasse, mesmo sabendo que é esse o fim, triste ou não, de todos os dias. Gostaria mesmo é de não saber nada. Hoje eu quero ser criança de novo, se é que eu já fui criança um dia, se é que eu já deixei de ser.

Enfim, hoje há tempo para qualquer filosofia de bar. Hoje estão perdoadas a licença poética e qualquer lágrima que porventura escape dos nossos olhos tão treinados a não se deixar trair por qualquer sentimentalismo barato.

Hoje eu quero ouvir suas histórias de infância, mesmo que elas nem sejam verdades, mesmo que nem você seja de verdade, eu não me importo.

Se você não tiver tempo de vir, eu vou estar feliz em saber que você estava ocupado com planos maiores, como sempre esteve (ah, você é tão diferente de mim!). Eu peço pro garçom guardar a cerveja e espero você me ligar.

Eu quis tanto te julgar, esperei toda noite você curar um pouco da monotonia de todos os meus dias. Hoje não quero mais, não quero nem ver você aqui.

E chega desse blá-blá-blá, que o pessoal do bar me olha torto e essa cerveja não tomada já me deixou sentimental demais.