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a loteria

como saber se as notícias de pessoas que ganharam a mega sena em bolões com os colegas da firma ou casais apostando por anos no mesmo número não são armações da lotérica pra gente continuar apostando cegamente confiando que a sorte muda em plena virada de ano?

hoje recebi um convite pra um concurso literário da faculdade. no regulamento tá escrito que parentes dos membros do corpo de júrados e os próprio jurados não podem participar. mas também tá escrito o júri será escolhido pela reitoria da faculdade, sem divulgar quem são os tais decididores (essa palavra existe?).

como saber o que a gente poderia ter sido? vai ver as faíscas de brilho que enxergamos em coisas que são cem por cento opacas só são artimanhas do nosso cérebro semelhantes as que nos fazem continuar apostando nos mesmos número do mesmo jogo. ou vai ver tem mesmo uma profundidade cintilante embaixo da poeira de um cérebro mal utilizado. cruel como os sorteios da loteria.

sei lá. isso é só um teste.

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Pílulas de amor

Seis da tarde e o tempo de São Paulo mudou em questão de minutos, como sempre. A névoa e o frio nem são tão perceptíveis no embolado de gente esperando o trem na plataforma da estação. Ali, fones de ouvido, gente falando no celular, alguns tentando ler e o guardinha ficando maluco tentando impedir as pessoas de ultrapassarem a linha amarela. E uma mulher, devia ter lá seus 29 anos, de cabelos cacheados, óculos e uma estrutura atarracada digitava o seguinte SMS: “Só posso parabenizá-la por ter conquistado seu coração”.

*

Quase na hora de dormir, depois daquele lenga-lenga doído que se arrasta pela noite toda, ele ofereceu metade do sofá. Vai que era pra testar se conseguiam mesmo deitar juntos. Ela, sabendo que não era magrinha, deitou e perguntou.

– Tô te esmagando aí?

– Não, eu sou de dormir em cantinho.

Foram para a cama e a conchinha funcionou. Com o sono agitado, se desvencilhavam e mudavam de posição. Mas, vira e mexe estavam grudados: pelas costas, pelos ombros, pelas pernas. Ela também era de cantinho. Ambos encolhidos em seus cantos que, no fim, eram demarcados no começo do corpo do outro. Tiveram que se separar. Incompatibilidade.

*

Era um casal impestuoso. Naquela manhã, pegaram o metrô pro trabalho. Na estação Sacomã, ainda sonolentos, encostavam-se um no outro entre pequenas cochiladas. Algumas palavras ríspidas causaram uma discussão calorosa e lacrimosa até a estação Santos-Imigrantes. Até Ana Rosa, faziam as pazes em beijos calorosos. Até que ela virou a cara de novo. A situação ficou crítica, visto que o moço já ia descer no Paraíso, próxima estação. Tentaram de tudo, mas é como se falassem línguas diferentes e o tempo se esgotando naqueles poucos metros, sem tempo de parada para aguardar a movimentação do trem a frente. Ele desce e ela chora até a Consolação, na falta de um trocadilho pior pra fazer.

 

Da sala de aula

De Vagar

Não tenho mais pressa. Nem espero mais amor, quiçá até das ligações eu desisti. Espero momentos. Torço por pequenas pílulas aonde tempo e espaço são meros conceitos superados e distantes, diminutos perante a luminosidade dessa brecha milagrosa. Lugares e situações praticamente hipotéticas que, não fossem as marcas no corpo ou espalhadas pela casa, poderiam até ser irreais. Sonhos, escapes inconscientes da mente cansada.

Não é ele. Também não é você. Em alguns momentos acho que não sou nem eu. São as emoções. O frio na barriga, nos momentos bons o arrepio, o calor. Nos comuns, a decepção. A inevitável e invisível presença do depois. De repente, o amor não me pertence mais. Vai o amor. Vão os rostos e mais rápido ainda o conteúdo dos copos. Ah, os copos. Vai-se o conteúdo, ficam sempre os copos. Vai o amor, vão-se os momentos, acabam os cigarros. Mas os copos… Ah, os copos…

Mesa de bar

Garçom, por favor enche esse copo. Enche que hoje eu quero ficar aqui. Não precisa trazer dois. Não, é isso mesmo. Hoje não vem ninguém. Somos apenas eu, você, essa mesa dobrável, os azuleijos sujos do banheiro e meu copo.

Peraí, não precisa me olhar com essa cara condescendente. Fique tranquilo, hoje essas paredes repletas de quadros amarelados e pó vão me acobertar enquanto eu e minha cabeça – que pesa o mundo – ficamos aqui vendo o tempo passar.

É isso mesmo que você entendeu. Acordei com uma ressaca dos diabos e o firme propósito de assistir o tempo passar.Ô, mas é claro que dá. Se não der, não tem problema, a gente sabe que ele passa mesmo assim. Faz essa cara não, já estive bem mais louco. Só que hoje eu acho que esses guardanapos (aliás, já reparou que guardanapo de boteco não limpa nada?) vão ser uma melhor companhia do que essa gente safada que tem por aí.

Hoje eu não quero ouvir fofocas, não quero saber se foi pênalti ou não nem gastar saliva com gente que vem hoje pra ir embora amanhã sem deixar rastros.

Vou torcer pro rádio tocar uma música boa, fazer um brinde com a minha garrafa, pra cerveja não faltar, sentar com meus fantasmas e lembrar pra sempre desse dia.

Agora, seu garçom, o senhor me dê licença faz favor que o senhor já tá atrapalhando meus planos com tanta pergunta.

“O quê que eu vou fazer com essa tal liberdade?” – PIRES, Alexandre. 1995

emile hirsch seu lindo

Recentemente, eu terminei um namoro de dois anos. Uma das causas clamadas foi ser ~livre~. Sabe, não precisar se preocupar com a sua depilação e com o que fazer num domingo que atenda a dois gostos diferentes? Daí, estou sentindo essa coisa gostosa que é simplesmente escolher por si só o que fazer, e é bem egoísta, mas ainda assim uma delícia.

O problema, amigo, é que isso é uma ilusão. Não somos livres mesmo, nunca seremos. A liberdade não existe, e é mais fácil pensar assim do que ficar se iludindo achando que você um dia vai ser um Chris McCandless. Você pode não ter um namorado, mas ainda assim terá que agradar sua família em finais de semana e algumas horas por domingo. Mesmo sem namorado e família,vai te restar a sua virilha que vai suplicar por uma depilação ainda que bem ocasional ou, se você for homem, não pode viver sem cortar as unhas para sempre.

Existe um momento em que você se sente livre. Eu já tive esse momento, certamente ainda terei outros. Aquela fração de tempo meio perdida e acidental em que você olha para os lados, para cima e para baixo e vê que está sozinho, que toma suas próprias decisões e manda, enfim, no seu nariz. Você, que se pensa livre, vai me dizer que olha só eu estou me contradizendo. Mas não, apesar de eu também achar que esse momento existe, tenho 100% de certeza que não passa de um acaso do destino, um feliz acidente de percurso que quase te provoca orgasmos de tanta felicidade.

No fim das contas, aqui está a pia cheia de louça e o prazo das matérias me lembrando que a liberdade não é nada além de pequenos momentos espalhados ao longo dessa estrada cagada que chamamos por conveniência de vida.

É tudo verdade

“Portanto, era isso que eles queriam: mentiras”. Mentiras maravilhosas. Era disso que precisavam. As pessoas eram idiotas, seria fácil para mim”

– Bukowski nem precisou terminar a faculdade de Jornalismo pra descobrir isso.

Temos uma relação estranha com a verdade. Você pode tratá-la como se fosse um diamante: fica lá longe, é bonito, mas, além de custar caro, não podemos usar no dia a dia, não se encaixa no nosso cotidiano apertado e cheio de caminhos escusos.

Ou então, travar com a verdade a relação que um cara que quer ser indie tem com uma banda que é “importante” conhecer: você fala que ama, que conhece cada parte daquilo. Mas na verdade você só fala disso porque sabe que é cult. Essa só vai acontecer quando a verdade não for mais overrated.

O que é difícil de ver é quem trata a verdade como um prato de arroz, feijão, bife e batata frita. Simples, comum e gostoso. Algo com o que se está familiarizado desde criança. (Se é que, num mundo de arroz integral e barras de cereais, ainda é possível considerar esse prato como simples e comum)

Buka já estava certo a trocentos anos atrás. A falta de verdade (que eufemismo lindo) é cool há muito tempo. E a verdade nua e crua é praticamente um par de crocs fluorescentes.

Nem adianta disfarçar grosserias e falta de educação com sinceridade e transparência em demasia. Estamos todos perdidos.

Um 2010 interminável

Sério. Eita ano que não vai embora de jeito nenhum. Até São Pedro se confundiu e mandou frio pra São Paulo achando que já estamos no próximo inverno. Calma lá, ainda temos 16 dias de dezembro pela frente.

Queria contar do meu ano e fazer um balanço geral, mas acho que 78 meses em um ano é tempo demais pra lembrar aqui.

2010 foi praticamente um Oscar Niemeyer dos anos. Pensando bem, foi meio Benjamin Button: nasceu velho e estranho, mas terminou jovem e bonito (tirando que o Benjamin Button era jovem com alma de velho, ENFIM).

Nesse ano, eu comecei a minha “carreira” no Jornalismo. Tive meu primeiro estágio na área e já estou no segundo… Aprendi a falar sobre ídolos teens, mercado de ações e tendências fashion, entre tantas outras coisas. Trabalhei em dois festivais e tive a oportunidade de ver Rage Against the Machine ao vivo. Escrevi menos, mas certamente melhor. Crônicas non-sense e bem sentimentais, além do jornalismo sério, foram parar em lugares que eu admiro. Cada vez mais eu agradeço por não ter passado no vestibular pra medicina, ainda que, segundo Capote, o ofício de jornalista seja a longa caminhada entre um drinque e outro.

Como sempre, quase nenhuma resolução de Ano Novo foi cumprida: não emagreci, não aprendi a tocar violão, não falei menos. Mas isso não foi ruim e pra 2011 eu não quero nenhuma resolução.

Nesse ano eu também fui eleita pro DCE da faculdade, o que vai me dar muito trabalho e várias náuseas de ter que lidar com uma politicagem desnecessária e sorrisos falsos pra pessoas que usavam indevidamente o dinheiro que eu como aluna pago todo mês.  Mas vai ser bom, amadurecer e botar a mão na massa pra mudar as coisas, ainda que numa pequena amostra do que é a nossa sociedade.

Tive um namorado de ponta a ponta o ano inteiro. Um relacionamento bem atípico mas edificante (e eu sei que essa palavra soa bem evangélica, me processem). Com ele dei risada, chorei, achei que o mundo fosse acabar, cozinhei. E graças a ele nasceram ideias bem bonitinhas que me fizeram exercer e muito uma criatividade que estava quase virando um robô.

Ganhei bons amigos, tive certeza que a minha família é demais e a minha melhor viagem foi pra uma casinha no meio do nada pra ficar cantando de madrugada deitada na cama.

Ouvi adjetivos que iam de jactante (essa palavra existe mesmo), chata pra cacete, inesquecível e muito legal. Os melhores elogios estão guardados comigo e só largo sob decreto.

Meu cabelo teve umas cinco cores diferentes, e meu furo na orelha está 4mm mais largo do que os 6mm do ano passado. Comprei uma camiseta de banda e a usei sem vergonha como não fazia desde os meus 13 anos. Descobri que não preciso deixar de usar tênis pra conseguir as coisas e também comprei meu tênis favorito da vida inteira.

Aprendi que festas de fim de ano de empresa podem ser legais e os chefes também.

E esse texto é meu, só pra eu lembrar as coisas que eu fiz e como esse ano foi contraditório. Eu sei que é muito clichêzão e é um compromisso meu fazer uma crônica natalina no meu estilo, sem ser piegas que nem aqui. E agora, por mais que tenha sido marcante, CHEGA NÉ 2010?

Crimes perfeitos não deixam suspeitos

(Ia colocar uma foto do Humberto Gessinguer aqui pra combinar com o título mas o wordpress não está colaborando)

Antes de tudo eu queria esclarecer que não sou a favor de homícidios e muito menos do politicamente correto, por isso me poupem.

Assim, supondo que eu seja um jogador de futebol chamado Nuno, que jogue num time chamado Flamingo. Supondo também que esse time seja um dos maiores do país, é óbvio que eu tenho muito dinheiro.

Se eu fosse o Nuno, tem algumas coisas que eu nunca faria, e essas são:

– Me envolver com prostitutas e atrizes pornôs (a não ser que eu tivesse feito vasectomia).

– Caso eu engravidasse alguma delas, não pensaria em matá-las.

– Caso eu resolvesse matá-las eu NUNCA mandaria esconder o corpo perto da casa de algum funcionário meu. Cara, se eu tenho dinheiro, eu vou até o meio, sei lá, da lagoa dos patos no rio grande do sul e desovo o corpo lá… Aí eu quero ver quem é que acha!

Meu, eu não entendo porque que essas pessoas que matam outras pessoas sabendo que são as principais suspeitas tendem a fazer essas coisas idiotas tipo jogar pela janela, enterrar perto de casa.

Tipo, mora você e a sua mulher, você não aguenta mais ela e resolve cometer uma PEQUENA agressão. A coisa foge de controle e aí uooou você matou a pobre coitada. Então você tem a brilhante idéia: deixa eu enterrar aqui no quintal que NINGUÉM vai desconfiar.

É por isso que os tribunais estão superlotados. As pessoas, além de sanguinárias, são burras.

Transição

Não quero mais postar aqui textos meus de gosto duvidoso, coisas minhas que só eu entendo. Com significados amplos, difusos e recheados de sentimento e inventividade. Uma forma particular demais de ver o mundo, pelo menos é o que parece.

Não quero, mas não resisto. Dá vontade de contar sobre as milhares de coisas surreais que acontecem comigo, que eu penso ou que eu sinto.

O cotidiano, ao mesmo tempo em que parece um mundo de infinitas possibilidades, também parece entediante demais.

Estou passando pela dificil transição entre escrever o que quero e escrever o que eu preciso. Bem diferente escrever sobre um louva-a-deus ateu e os novos modelos de máquina de lavar louça no mercado. Mas eu me acostumo. Foi pra isso que eu escolhi jornalismo, não foi?

A vida como ela é (ou Talvez uma Repetição de Título)

A tragédia da vida se esconde na dor que não é compartilhada, aquela que só dói em você. O tipo de dor que ninguém, a não ser você, é capaz de entender e sentir. Aquela dor que te surpreende no meio de uma festa, antes de dormir. Vem desnuda de disfarces ou fantasiada de torpor. Dói mais ainda quando outra pessoa consegue achar graça disso, ainda que esteja diretamente relacionada com o motivo dessa dor.

Ou talvez seja essa a beleza da vida. Uns chorarem e outros rirem. Uns dançarem e outros caírem. Talvez não faça sentido e nem tenha graça nesse enredo se todos amassem e sofressem com a mesma intensidade. O público, o autor e o ator não viriam se todos os amores fossem correspondidos, se todas as familias fossem felizes, se toda dor tivesse explicação e solução. Se a tragédia não morasse na beleza e a beleza não morasse na tragédia.

No fim, a vida é mesmo como Nelson Rodrigues escrevia: ridícula de tão dramática, doída de tão real.

Sentimentalismo barato

Hoje eu gostaria que você sentasse aqui comigo. Trouxesse duas cervejas e o mar, pra conversa fluir um pouco melhor.

Caso você resolva vir, gostaria também que tivesse um bocado de paciência: pode ser que eu tagarele, pode ser que eu fale sobre o tempo ou pode ser que eu fique apenas me justificando antes de falar mesmo o que eu preciso falar, que eu nem sei direito o que é. Vale avisar que esse tipo de comportamento é bem típico meu.

Por conta de não sabermos direito o tempo que será gasto, escolha para você aquela cadeira de palha confortável na qual você nunca pôde me embalar,  ou será que fui eu que nunca quis ser embalada? Quem sabe no ritmo dela a gente consiga se acertar.

Hoje eu gostaria que o dia não acabasse, mesmo sabendo que é esse o fim, triste ou não, de todos os dias. Gostaria mesmo é de não saber nada. Hoje eu quero ser criança de novo, se é que eu já fui criança um dia, se é que eu já deixei de ser.

Enfim, hoje há tempo para qualquer filosofia de bar. Hoje estão perdoadas a licença poética e qualquer lágrima que porventura escape dos nossos olhos tão treinados a não se deixar trair por qualquer sentimentalismo barato.

Hoje eu quero ouvir suas histórias de infância, mesmo que elas nem sejam verdades, mesmo que nem você seja de verdade, eu não me importo.

Se você não tiver tempo de vir, eu vou estar feliz em saber que você estava ocupado com planos maiores, como sempre esteve (ah, você é tão diferente de mim!). Eu peço pro garçom guardar a cerveja e espero você me ligar.

Eu quis tanto te julgar, esperei toda noite você curar um pouco da monotonia de todos os meus dias. Hoje não quero mais, não quero nem ver você aqui.

E chega desse blá-blá-blá, que o pessoal do bar me olha torto e essa cerveja não tomada já me deixou sentimental demais.