O ouriço

Anomalia de um sistema que se revela grotesco e do qual zombo suavemente, todo dia, num foro íntimo que ninguém penetra
Muriel Barbery, em A Elegância do Ouriço

Hoje cheguei no trabalho querendo compartilhar tanta coisa que já tinha acontecido nesse começo de dia. Parece difícil pensar em algo que aconteça no borrão cinza do tempo que envolve o despertar até o momento de sentar a bunda na cadeira do escritório. Apesar de que, se refletirmos sobre o assunto, o passar das horas também é muitas vezes só o passar das horas.

A sensação do peso dos três cobertores que me impediam de levantar mais cedo outra vez. O ralo do chuveiro entupido há dias e que conseguiu transformar o box numa banheira suja. O final de um livro subestimado por mim mas que me provocou um acesso de choro no metrô. Quantas sensações, reflexões e emoções couberam nessa hora e meia? E porque é tão difícil guardá-las? Tudo é fagocitado tão facilmente ao chegar aqui ou em qualquer outro lugar e perceber que não há outra pessoa que tenha sentido – ou que se importe com coisas assim – os pés molhados frios demais ou que tenha chorado a morte de alguém que nem existe.  Ou melhor, talvez alguém tenha sentido também, mas esses lampejos caem no inevitável buraco negro do cotidiano que não aceita desvios. Tudo que a cabeça pensa nos poucos períodos em que não precisa se esforçar, apenas deixar o corpo fazer o trabalho de deslocamento, tudo é desconstituído e perde o significado minuto a minuto, numa inevitável contagem regressiva rumo ao nada.

Até que terminamos assim: parte do escritório, parte da redação, parte da fábrica, parte do trânsito, parte da multidão no trem que tenta voltar pra casa. Parte do povo cansado que só quer dormir e adiar os afazeres pra amanhã. E o amanhã…

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