Arquivo da categoria: parece poesia

Rastro

O problema é que as pessoas cheiram

Apesar dos perfumes

Apesar dos hidratantes corporais

As pessoas tem cheiros, e isso é uma grande verdade

Dentro dos trens lotados

Na forma do corpo vazio ao lado, na cama

 

O cheiro suado

Do dia repleto do trabalho

O cheiro de alho e cebola

Que teima em ficar nos dedos

As pessoas tem cheiros

Mesmo por baixo da água de colônia

Cheiro da boca

Cheiro do suor

O inegável cheiro do sexo

É esse o grande problema do mundo:

As pessoas cheiram

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Precaução

Cuidado, cigarro mata

Cerveja mata

Não lavar as mãos mata

Torresmo mata

Trabalho demais mata

Bungee Jump eventualmente pode matar

Andar de avião também

Mc Donalds mata

Atravessar fora da faixa, adivinha, mata

Viver também mata, cuidado.

A vida como ela é (ou Talvez uma Repetição de Título)

A tragédia da vida se esconde na dor que não é compartilhada, aquela que só dói em você. O tipo de dor que ninguém, a não ser você, é capaz de entender e sentir. Aquela dor que te surpreende no meio de uma festa, antes de dormir. Vem desnuda de disfarces ou fantasiada de torpor. Dói mais ainda quando outra pessoa consegue achar graça disso, ainda que esteja diretamente relacionada com o motivo dessa dor.

Ou talvez seja essa a beleza da vida. Uns chorarem e outros rirem. Uns dançarem e outros caírem. Talvez não faça sentido e nem tenha graça nesse enredo se todos amassem e sofressem com a mesma intensidade. O público, o autor e o ator não viriam se todos os amores fossem correspondidos, se todas as familias fossem felizes, se toda dor tivesse explicação e solução. Se a tragédia não morasse na beleza e a beleza não morasse na tragédia.

No fim, a vida é mesmo como Nelson Rodrigues escrevia: ridícula de tão dramática, doída de tão real.

O catador de papel

Não era necessário escrever sobre isso, bastava apenas uma foto. Mas, às vezes, é bom treinarmos a imaginação e nos forçarmos para descrever com riqueza de detalhes uma coisa tão poética que dá até medo de escrever pra não estragar. 

No único descanso do dia

É um vulto entre as avenidas

Recolhendo o que ninguém mais queria

Cantando músicas esquecidas 

Sentou pra descansar

O único descanso do dia

Antes da hora do jantar

Antes da fome da filha 

Dos cachorros deitados ao seu lado

Ao carrinho estrategicamente parado

O único descanso do dia

E tudo lembrava poesia 

De uma capa surrada a outra

Dos personagens mortos, das suas alegrias

Histórias surgindo do lixo

No único descanso do dia.

Parece Poesia

Hoje caiu lixo do céu
Era da laje, e era lixo
Mas parecia poesia
Parecia arte

Uns flocos brancos, devia ser papel ou plástico
Mas agora eram neve, ou petálas brancas

Essa janela já é parte de mim
E hoje parece que sou eu, qualquer janela
A minha janela.

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