A separação

Ele arrumou as malas e fez questão de não a esperar acordar. Pra rechear as valizes, escolheu preferencialmente o que sabia que ia fazer mais falta pra sanidade dela. Não porque a odiasse, mas queria dar uma lição nela, queria mostrar que era importante. Se essa pequena achava que podia ignorar minha existência comigo bem ali do lado, ia ver só. Quero ver se virar sem mim.

Ela acordou e, acostumada que estava a ignorar solenemente sua presença, fez o de sempre. Levantou, escovou os dentes. Ao sair de casa, percebeu que o celular tinha ficado ao lado do travesseiro. Não voltou pra buscar. Ao voltar do trabalho (que já não tinha sido lá essas coisas), encontrou um amigo e se impressionou ao ver no seu braço esquerdo uma tatuagem que não estava lá antes. “Mas eu tenho essa tatuagem há anos!”, disse o cara.

Ele, mesmo longe, sabia o que estava acontecendo. Sabia porque, ao deixá-la, já tinha a certeza da falta que faria. Por isso, sentia agora a satisfação de finalmente afetá-la, a satisfação que todos sentimos ao perceber que nossa ausência é sentida mesmo por alguém que nunca demonstrou se importar com a presença. Aliás, muito pelo contrário, ela fazia questão de demonstrar que não precisava dele, em cada pequena atitude do dia-a-dia, como escolher passar o sábado vendo TV como um zumbi e ignorar a fome que ele sentia. Agora, observando de longe com um drink na mão, ele lembra com quase dó (dela, claro), de quando pedia que ela pelo amor de deus pendurasse um quadro na parede, saísse pra ver um filme e ela mal olhava, se é que ouvia.

Ela não sabe mais pensar. Tem a consciência disso. Embora a consciência seja apenas um reflexo quase institivo nesse caso, já que ele não está mais lá para ajudá-la nos momentos de fazer conexões e reflexões, ela tem certeza de que algo lhe falta. Essa sensação é a mesma de um animal irracional que vê sua casa destrúida de repente: ele não raciocina que lhe tiraram algo, mas sabe que esse algo deveria estar ali. Ela sente a sua falta quando se vê cometendo erros primários de português, mas principalmente quando abre a geladeira e esquece subitamente o que ia pegar. Se sente mal, inquieta, mas não vê que é justamente ele que lhe falta.

Ele não quer redenção. Não espera que ela lhe procure. Ela já perdeu a capacidade de implorar por sua volta. Ele não busca em outros corpos o que não encontrou nela. Busca em copos, a mesma coisa que ela faz, inconscientemente, quase um espelho dos movimentos dele.

Ela mal conseguiria entender se presenciasse a seguinte cena: ele dançando livre, longe dos avisos e das cobranças. Leve, quase flutuando.

Ele ri. Justiça foi feita.

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2 pensamentos sobre “A separação

  1. Mariana Lins disse:

    Muito bom! Achei que você fosse deixar explícito quem é ele, então tô me sentindo ~especial~ por já saber. Mas também fiquei curiosa… E se você não tivesse me contado?

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