De batatas e amor

Esse texto meu foi originalmente publicado na edição de outubro da Revista Trip, em um caderno colaborativo sobre o futuro. O que saiu impresso era menorzinho, então essa é a versão antes de ter que encurtá-la.

Por mais que o homem já tenha inventado descascadores de batatas, ainda assim é bem chato descascar esse tubérculo (e, olha, essa palavra ainda existia em 2010). Ainda mais quando, no nosso caso, nem isso tem, só uma faca cega que você diz ter amolado.

Do meu lado está você, destrinchando um frango, ou talvez já esteja na fase de temperá-lo. Você me pede pra cortar alguns alhos, mas parece se comover com meu esforço na cozinha e me ajuda com eles também.

Um gole de cerveja entre uma facada e outra, o tempo de espera até o fogão fazer a parte dele. E o nosso almoço tá na mesa. Mesa mal-colocada, mas quem pode dizer olhando agora que diferença há nisso pra um almoço à beira-mar com camarões do tamanho de uma cabeça humana?

Depois de uma quantidade de comida que nunca seria adequada pra um almoço chique, o colchão de casal jogado no chão da sala parece mais com uma espreguiçadeira de hotel de luxo. Você consegue ver que a nossa TV ainda era meio velha? Nem canais pagos tinhámos! Mas olha aí a nossa cara de quem não se importava com isso.

Há dez anos atrás, era assim que nós vivíamos. Meio que imunes a um monte de convenções, rituais e protocolos de amor e convivência. E agora? Me conta como é. Quero saber se posso sonhar com esse dia ou se é melhor aproveitar o hoje que parece que ainda nos resta.

Ainda cozinhamos juntos ou você senta pra ver TV enquanto eu me preocupo em te agradar? Umas cervejas e um colchão são o suficiente para nós ou agora nos ocupamos em restaurantes caros e passeios em shoppings? Me diz, temos filhos? Eles têm seus olhos azuis meio verdes? Eles são bagunceiros, introspectivos? Será que tem a sua mordida cruzada ou meus graus de miopia? Ou será que só você teve filhos e eu virei uma solteirona workaholic?

Será que eu ainda acordo linda como você costuma dizer agora?

Não sei se em 2020 ainda existe romance, caso contrário toda esse sentimentalismo vai perder seu sentido (ainda existe sentido? e sentimento?). Mas tente resgatar as lembranças dessa tarde. Da felicidade que hoje temos de sobra. Da sua mão ainda cheirando a cebola e alho percorrendo meu corpo. E, se estivermos atravessando momentos díficeis… lembra que, pelo menos por 48 horas, tudo foi extremamente fácil.

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