Amor em tempos de trilhos

Ela era a voz do metrô. Ele a imaginava alta, esguia, sem se importar se talvez ela não fosse realmente assim… No começo, ele achou que estava ficando louco, que aquela voz tão especial não podia estar falando com ele, diretamente com ele. Mas a coisa foi crescendo até que chegou num ponto que a ouvir era a única alegria, o único alívio de uma vida exaustiva, mecânica, artificial.

Via de regra, entrava no vagão e, num movimento avesso ao da maioria, tirava os fones de ouvido, parava de ler o jornal e ficava concentrado de olhos fechados. Quem olhasse distraído podia jurar que estava dormindo em pé. Mas estava imaginando. Estava sentindo a voz entrando em casa poro do seu corpo.

Na sua cabeça ela lhe sussurrava inúmeras juras de amor eterno, descrevia paisagens de lugares bem distantes daqueles túneis escuros que juntos percorriam todos os dias. Lugares nos quais a voz estava condenada a permanecer

Na sua cabeça eles conversavam. Mal podia esperar pra chegar no vagão e contar pra ela como havia sido o dia anterior, os sonhos em que ela esteve presente a noite inteira.

Quem olhava não imaginava. Um homem de olhos fechados. Dormindo em pé? Passando mal? Provavelmente ninguém nem prestava atenção.

O homem não sabia que a voz era uma senhora casada, de óculos e gordinha. Não sabia também que aquela voz sempre sonhara estar em outros lugares. Comerciais, programas de rádio, dublagens… Todos os sonhos resumidos a vários quilômetros embaixo da terra e avisos ignorados pela lotação que impede que o que ela fala seja de fato ouvido. Exceto ele, é claro, que ouve e ouve cada palavra, cada jura de amor, cada música que ela canta pra embalar sua viagem…

Ninguém entendia quando ele sorria de olhos fechados ao aviso de que o metrô parou entre uma estação e outra. Mais tempo juntos.

Ninguém entendeu porque hoje alguém pulou na linha do trem sorrindo…

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7 pensamentos sobre “Amor em tempos de trilhos

  1. rayssa gon disse:

    acho q me apaixonei. 🙂

  2. regina disse:

    lindo chloè lindo lindo. e não dá para esquecer, tal qual “invasao de privacidade, o louva a deus ateu, a historia de eva, a mulher que se apaixonou por um cacto…” prá frente, chloè

  3. Aline disse:

    Acabei de ler seu textinho pra TRIP desse mês e cheguei a me emocionar.
    Não sei se é o término recente de um relacionamento intenso, somada a vontande de que possa existir alguém com que eu possa compartilhar lembranças daqui há 10 anos.
    O fato é que tive necessidade de vir aqui, fuçar um pouco mais sobre ti.
    Registrado o elogio, aviso que voltarei com frequência 😉

  4. Heloisa disse:

    Parabéns, Chloé, muito lindo.
    Heloisa

  5. Francisco Vasconcelos disse:

    Parabéns, Chloé. Na simplicidade de teu texto, limpo e enxuto, retratas, com fidelidade, a incontida paixão do
    passageiro do metrô. Continua, menina! Há um velho ditado popular que diz não degenerar “quem puxa os seus”. E esse, sinceramente, parece ser o teu caso.

  6. Flávia Rios disse:

    Cloé,
    Gostei do texto. Intenso sem ser denso. Profundo sem ser um pé no saco!
    Bjs,
    Flavinha (amiga da sua vó Regina e da tia Vera)

  7. YRoehr disse:

    Cloé, acompanho você através das indicações da sua avó Regina, estou encantada com os seus textos, também o seu DNA é de primeira mas, talento não é para quem quer e sim para quem tem.
    Parabéns, a gente consegue vivenciar as suas palavras.
    Um abraço,
    Yara

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