O crime da Rua Rolândia

     O céu estava nublado naquela noite e a rua era tomada pela garoa insistente que só existe em São Paulo. Um dia que se não existisse não faria a menor falta, quarta-feira de uma semana interminável. As crianças viam TV antes de a mãe assumir o controle para ver a nova novela das oito e Seu Zé, cansado, fumava seu último cigarro do dia após ter jantado na mesinha de quatro lugares que ficava no canto da sala ainda em obras. Mas ninguém poderia prever os acontecimentos que se discorreriam naquela fatídica noite.

      A despeito do marasmo, Tico, o canário de Seu Zé, cantava alegremente, como sempre fazia. Uma canção de resistência frente ao tédio daquela quarta-feira. Como já acostumada ao canto do passarinho, a família foi dormir alheia ao estado de espírito de Tico e preparando-se para uma quinta-feira que seria idêntica a todas as outras quintas-feiras da história da família. Seria, não fosse o duro baque sofrido à noite, revelado pela manhã cinzenta que acabara de nascer.

      Acontece que o Seu Zé tem um vizinho de nome Simba. Simba é um gato tigrado em tons de cinza, desses que só moram na sua casa pra comer e dormir, e passam mais da metade do dia pelas ruas e telhados. Um típico gato vira-lata, como podem comprovar as gatas das casas vizinhas e agora o Seu Zé e sua família também. Naquela quinta-feira, ao levantar, Seu Zé, dando falta do canto matutino habitual de Tico, foi até o quintal para ver porque o pássaro não cantava.

     O que ele viu foi a cena de um crime, pintada claramente no quintal de sua casa: de Tico, só sobraram poucos restos de penas e sangue no chão, enquanto Simba limpava os bigodes a poucos metros dali. Seu Zé tem certeza de que o canário virou refeição e lamenta o fato de não poder ao menos fazer um enterro pra Tico, fiel companheiro de tantos dias entediantes. Mas, ao ser questionado sobre o desfecho da história, Seu Zé diz pra avisar que ainda não acabou, só vai acabar quando ele der cabo ao gato. No trabalho, todos dizem ao Seu Zé que o que resta é comprar outro canário e que é parte da natureza do gato comer passarinhos. Ele não se dá por vencido, quer vingar Tico, enquanto Simba, satisfeito, limpa os bigodes com a barriga pra cima no telhado do lado, comemorando o álibi que a natureza lhe concedeu e mais uma refeição que Seu Zé, sem querer, forneceu.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: