Cai um mito

Pééémmmmm, Pééémmmm. De novo aquele barulho irritante me despertava. 05h40 da manhã e já era a terceira vez que eu adiava o despertador, mas não tinha mais jeito e eu precisava levantar e encarar aquele mesmo tédio de sempre. Vesti-me mecanicamente na meia-luz, fiz a barba meio sonolento, mas logo percebi que não seria um dia comum. A começar pela aranha que eu vi na minha cozinha, e eu moro no 20º andar, um lugar estranho para uma aranha estar, e ela era azul-bebê. Reflexos da noite passada, pensei eu, e sai para o trabalho. Ao cumprimentar o Seu Adamastor, porteiro do prédio, que estava mais sinistro do que o normal aquele dia, com uns óculos Ray-ban e ouvindo um iPod de última geração, dei de cara com outra aranha, dessa vez cor-de-rosa.

Como se não fosse suficientemente estranho ver aranhas coloridas, o meu ônibus passou rapidinho, e vazio. Um ônibus vazio de manhã em Nova York, isso sim era bem mais estranho do que aranha coloridas. Contudo, subi no ônibus, com uma expectativa de que toda aquela estranheza não fosse parar por ali. A cobradora, uma mulher linda com o olho cor de violeta, me deu um sorriso furtivo ao me devolver o troco, com alguns centavos a mais do que o correto e com um bilhete aonde se lia:

Quer passar por baixo da minha catraca? 2547-7777 Beijos, Lu

Olhei para ela como quem não acreditasse que algo assim pudesse acontecer, e imediatamente rasguei o bilhete e o joguei pela janela, certo de que aquilo devia ser algum tipo de armação. Essa atitude foi malvista pela motorista, também mulher, mas com um aspecto mais masculinizado. Tentei bater uma foto desse momento surreal, mas descobri que o aspecto masculino não era à toa quando ela deu uma guinada fortíssima a fim de me fazer bater a cabeça no banco da frente, e a ultima imagem que vi antes de desacordar foi a cobradora rindo, satisfeita em sua vingança.

Acordei num quarto onde havia uma gigantesca aranha fúcsia sentada olhando diretamente pra mim, quer dizer, aranhas têm muitos olhos (ou será que são as moscas?), mas pelo menos quatro deles certamente me encararam. Eu não fazia idéia do que estava fazendo ali, mas logo percebi que devia ser alguma vingancinha idiota da Mariana, uma louca com quem eu tinha tido um breve relacionamento, encerrado após ela declarar que não mais se depilaria, nunca mais. Quando tentei me movimentar, estava amarrado por dois sutiãs parcialmente queimados, numa cama de solteiro. Pajeando a aranha, estavam várias mulheres, gordas, magras, altas, baixas, com um peito só, com cabelos longos, curtos, olhos azuis e olhos de aranha.

 Muita mulher pra um quarto só, o que quer dizer um ruído insuportável e todas falando ao mesmo tempo, e o mais misterioso, todas escutando tudo! Ficavam falando alguma coisa sobre o plano de dominação mundial, de ódio aos homens e um blá blá blá que eu já devia ter escutado em algum programa matinal da TV aberta ou nas minhas aulas da faculdade de jornalismo. Enfim, como eu estava meio grogue ainda, não entendi direito. Só voltei a me recompor quando bolei um plano de ação pra escapar dali:

– Tá bom, entendi que vocês me odeiam só porque eu sou homem, agora o que eu faço pra sair daqui? – de uma genialidade tremenda esse comentário.

 – Nós temos o poder, mesmo quando você sair daqui, um dia você ainda será dominado por uma de nós. O dia em que não houver só substantivos masculinos, o dia em que não formos consideradas histéricas… – e lá se ia mais um discurso de um Marcus Garvey de saias, que durou não sei quanto tempo, mas o suficiente pra eu dormir, acordar, e a aranha continuar falando… – e agora, pra você ser liberado pra voltar a essa vida fútil de macho alfa, temos que deixar você marcado para sempre, pra servir aos nossos propósitos…

-NÃÃÃÃÃÃOOOOOOOOOOOOOOOO

 

Tudo o que aconteceu naquele dia, me mudou para sempre, e as mutações que sofri me trouxeram poderes, e responsabilidades, e um instinto feminino muito aguçado para um macho como eu. Voltei para casa sob circunstâncias que prefiro não revelar, e quem me conhece (e vê minhas tatuagens de aranhas coloridas cerceando partes indizíveis aqui) sabe que não estou mentindo quando conto essa história.

Hoje todo mundo acha que eu sou um puta super-herói, mas ninguém sabe que eu na verdade, faço parte dos planos feminista de dominação mundial, e estou fadado a ser seguido o tempo todo por aranhas coloridas, uma de cada cor. Pros meus amigos íntimos, explico porque odeio o feminismo. Odeio ainda mais quando aquela insuportável da Mary Jane me obriga a salvar ela de algo. Se é mulher independente e vai dominar o mundo, tem que pedir socorro porque então porra?

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2 pensamentos sobre “Cai um mito

  1. escrevendohorrores disse:

    Eu acho que ele tava em sampa, não em ny!
    adorei o texto! shaiuhsiuahusas =D
    te amo

  2. Enun disse:

    Uma aranha FÚCSIA? kkkkkkkkkkkkk’ deve ser a coisa mais linda do universo! hauhauhauha… tu ta ficando cada vez mais imáginaria nos teus textos, é mto lexotan! kiii kiiii kiii

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