A árvore sem outono

Como a arte nasce? Como perceber beleza nas coisas que vemos todos os dias? Como enxergar de fato essas coisas? Díficil responder essas perguntas, dentre as tantas outras que faço, difícil treinar o olhar. Mais difícil ainda foi perceber Terezinha, que, diferente da de Jesus, não foi ao chão.

Faz quatro anos que moro no Edifício Fúlvia, e só agora reparei em Terezinha, roxa, viva, a única coisa que parece respirar nesse frio tão absurdo e contrastante ao sol brilhando lá fora. Terezinha é uma árvore. A única árvore da rua que debocha do outono e se ergue magistral na rua, bem próxima a árvore dos clichês do texto abaixo, que, por ser uma árvore-clichê, já deixou junho secar quase todas as suas folhas. Se ergue magistral é uma hipérbole, uma superestima que na verdade nunca é direcionada a Terezinha. É provavél que ninguém a note, eu mesma só agora reparei na ousadia dela de querer ser uma árvore do contra, a única diferente por aqui. Será que as outras árvores a desprezam por isso? Será que na primavera Terezinha ficará tão sem vida quanto a árvore-clichê está agora? Será que até a primavera a presença de Terezinha ainda será notada por mim que tenho olhos tão destreinados e dispersos?

Sem analogias e sem clichês, Terezinha não precisou de três cavalheiros a acudindo para levantar do chão. Terezinha não caiu, e sorri pra mim toda tarde, com o roxo de suas flores constrastando com o bonito sol de outono, que, como fizesse companhia a Terezinha, também debocha do vento frio e brilha, refletindo a árvore sem outono da calçada em frente ao Edíficio Fúlvia.

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2 pensamentos sobre “A árvore sem outono

  1. escrevendohorrores disse:

    Minha professora diz que arte é a expressão da alma.
    Vai ver que a Terezinha está se expressando, contrariando as árvores-clichê. =D

  2. Thiago disse:

    A arte nasce a partir do texto abaixo, quando você vem e escreve este acima. Quando você nomeia a árvore que vive em frente ao seu apartamento e você diz que ela debocha do outono por ainda ter flores e que as outras árvores talvez a invejem. Que a partir daí você vai acordar e ir pra janela dar bom dia à árvore.
    Mas e quando ela não aguentar mais? E quando os dias frios e sem sol chegarem realmente e ela tiver que assassinar suas flores pra sobreviver ao frio? As outras árvores então rirão dela e dirão: Viu Terezinha, essa é a natureza, não adiantar lutar contra ela. ?
    E aí sim, é que talvez seus olhos não notem mais Terezinha, eles esqueceram de olhar pra árvore quando sair pelo portão do prédio e sorrir sem que ninguém veja, porque nesse momento, provavelmente já tenha nascido outra arte.

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