Da personificação e nossa mania de psicologizar tudo

Eu personifico coisas, eu faço neologias. Não é porque as coisas sobre as quais eu quero falar não existem e eu preciso inventá-las ou dar forma a sentimentos para torná-los mais fáceis de lidar. Não é porque a minha vida não é interessante e eu tenho uma auto estima baixa, então eu preciso falar sobre coisas que não são reais e contar histórias que não são minhas. Percebam aí um trauma de quem detesta gente que fala que tudo na vida tem um fundo psicológico (daí a palavra mal-inventada do título, caso não esteja óbvio o suficiente).

Talvez seja por isso de sempre achar que as pessoas vão ver um outro sentido no que eu escrevi que eu repita muito as palavras, ou talvez seja só porque fique mais bonito no texto. Eu personifico coisas. Talvez porque seja bonito personificar também, afinal o que é mais legal: o amor como um sentimento sem cor e sem definições ou como um homem gordo e inconveniente que se mete em cada espaço do seu mundo sem pedir licença?

Eu personifico coisas, e repito. Ah, eu invento histórias também. Fico imaginando o mundo que existe na minha cabeça, onde mora tanta gente (gente personificada, fique bem claro) e parece que sobra tanto espaço também. Fico imaginando o mundo que tem na cabeça de cada pessoa, e como cada pessoa é tão infinita e é praticamente um crime definir alguém. Mas isso seja talvez uma desculpa para eu mesma não querer me definir. Um chove-não-molha eterno, onde cada hora eu sou o que eu quiser, ou era, ou serei de novo ou ainda vou ser. Uma contradição, uma não, várias, tão difíceis de se fazer entender como esse texto.

Quando eu escrevo não sou só eu (e eu não sou esquizofrênica), são vários eus trabalhando em uma linha de produção bagunçada e falha na minha cabeça, que vomita de repente histórias inteiras, que às vezes não significam nada e eu gosto de como as pessoas dão significados diferentes pra isso. Não gosto de análises psicológicas, mas gosto das pessoas verem sentido nos mundos que eu crio. E talvez nesses pedaços de mundo, nesses textos profundos sem querer eu mostre quem eu sou, mesmo que esteja dividido em um milhão de pedaços. Cabe a quem julgar interessante montar, porque a mim, sinceramente, não interessa nem um pouco. Por isso, eu personifico coisas. Para não personificar a mim mesma.

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Um pensamento sobre “Da personificação e nossa mania de psicologizar tudo

  1. Vladimir disse:

    “Fico imaginando o mundo que tem na cabeça de cada pessoa, e como cada pessoa é tão infinita e é praticamente um crime definir alguém.”
    Concordo plenamente e, no entanto, muitas pessoas insistem em rotular e como você bem disse: “definir”.
    Cada um na sua individualidade representa um verdadeiro infinito de capacidades, qualidades, defeitos, etc. E se já é difícil nos auto-conhecer que dirá conhecer aos outros por completo.

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