Expectativa – Ponto de Vista nº 1.

Expectativa. Era expectativa o que Antunes sentia enquanto fazia mecanicamente o que já havia deixado de ser feito criativamente há muito tempo. Expectativa de que seu chefe finalmente reconhecesse o tanto que ele fazia por tão pouco, há exatos quatro anos, sete meses e treze dias, assim como contava também os tão mais extensos vinte e um anos, onze meses e um dia do seu casamento com Lurdinha. Um homem de contar o tempo era o Antunes, e quanto mais contava, mais se angustiava, e mais esperava.

Mesmo depois de dezenove anos e dez meses de convivência com o único filho, Antunes ainda tinha expectativas de que o menino, agora homem criado, com barba falhada e uma moto que a mulher teimou em dar, fosse um dia reconhecido por seus talentos. Talentos, é claro, que só o Antunes e Lurdinha, mais realista essa, viam. Expectativa também ele tinha de que o seu Bragantino, time do coração apesar de viver na capital há mais de trinta anos, um dia fosse reviver as glórias do passado, de uma época que seu bigode era mais bonito e as expectativas maiores ainda.

A Expectativa era praticamente uma pessoa na vida de Antunes, um bem. Ele sentia ou a possuía? Sabia que já havia nascido com ela. E ela conseguiu ser mais fiel a ele do que a própria Lurdinha, coitada da Lurdinha. Mesmo quando ele não ganhou a promoção tão aguardada após quatro anos, sete meses e treze dias de trabalho naquela sala sem ar condicionado e com uma janela que dava vista pro escritório bonito do prédio da frente, a Expectativa não foi embora, e continuou passando a mão na cabeça do Antunes. Quando olhou para a arquibancada tão vazia de um jogo qualquer do seu Bragantino, a Expectativa ainda ficou lá, e pediu mais paciência, que estava vindo um novo atacante do XV de Jaú e os tempos áureos voltariam. Depois de dez anos, oito meses e cinco dias de casado, quando viu que Lurdinha, que já não era lá essas coisas, estava com um peito pior ainda do que tinha nas épocas de namoro, a Expectativa o consolou dizendo que a convivência e o tempo trariam bens maiores ainda que os males que a ela espantava da cabeça de Antunes. Foi a Expectativa que aconselhou Antunes a sair logo daquele empreguinho miserável (palavras da própria expectativa), mas foi Lurdinha que deu um bofetão na cara de Antunes, quem é que ia pagar as contas agora? O Antunes Jr. que não seria, muito menos a Expectativa.

Depois de onze meses desempregado, e com Antunes Jr. já pela quarta vez fazendo o segundo ano do ensino médio, Antunes resolveu se separar de vez, da Expectativa que o fazia esperar mais do que devia (palavras de Lurdinha). Mas a Expectativa já estava num caso antigo demais com ele para sair assim de sua vida, sem nem ao menos uma divisão de bens ou um processo litigioso. E foi com um carinho na cabeça e umas palavas escorridas no ouvido, que Antunes, confiando cegamente na sua fiel companheira, abandonou Lurdinha e foi viver num chalé perto de Caruaru, vendeu seu carro e comprou um arado e algumas sementes, e espera até hoje (já faz nove anos, três meses e alguns dias – Antunes parou de contar) que a Expectativa traga a chuva que ela prometeu. Uma chuva que vai brotar até trufa francesa no sertão, palavras da própria expectativa.

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Um pensamento sobre “Expectativa – Ponto de Vista nº 1.

  1. regina pinheiro disse:

    eta textinho porreta!!! toca pra frente, está uma delícia.

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