Elzinha

Elzinha não acreditava em horóscopo, não acreditava na Bíblia, não acreditava no porteiro do seu prédio. Regava a sua violeta todos os dias, e Roberto Augusto, seu cactus da mesinha de centro, quase nunca. Não acreditava que conversar com as plantas as fizessem crescer mais rápido, mas acreditava que conversar com o cactus fizesse bem pra ela mesma.

Todos os dias chegava do trabalho às 15 pras 7, tirava os sapatos no quarto, soltava o cabelo e ia preparar a janta. Preparar, fique bem claro, se resumia basicamente a colocar alguma coisa pra esquentar no microondas, salvo raras exceções quando batia nela uma vontade danada de cozinhar (quase nunca as receitas davam certo, por isso ela costumava apelar para o microondas). Sentava-se no sofá em frente a mesinha de centro, começava a comer, vendo TV e conversando com Roberto Augusto, ou Betinho, nos dias em que ela estava feliz porque alguma coisa havia acontecido.

Roberto Augusto havia chegado na vida dela através de um homem, que o deu como uma forma de protesto, reclamando que Elzinha nunca acreditava nas coisas que ele dizia. Ela gostou, não acreditou nas verdadeiras intenções dele, mas gostou do cactus, e até o batizou do nome do personagem do seu romance favorito (apesar de não acreditar no amor, gostava de romances baratos). Gostava de Roberto Augusto porque via nele uma coisa que não via em nenhum lugar: credibilidade total. Era um cactus, sempre seria, nascia as vezes uma flor tímida nele, mas Robertinho seria sempre Robertinho, e todos os dias estaria às 15 pras 8 a esperando chegar na mesinha do centro. Foi Roberto Augusto que ouviu quando Elzinha reclamava do proprietário do apartamento que ainda não tinha mandado ninguém arrumar o piso da cozinha, e foi Roberto Augusto que quase afogou pelo tanto que Elzinha chorou quando acreditou no amor vendo um filme que passava na TV, mas que terminou com a morte do mocinho.

Um dia Elzinha, com gastrite devido a tantas noites de congelados e catchup, decidiu contratar uma empregada, para cozinhar e aproveitar pra dar um jeito “naquela pocilga fedida e mal acabada que você chama de apartamento”, segundo palavras da mãe de Elzinha. Odila era o nome da moça, recém chegada do Amapá para uma utópica vida melhor aqui.

No Amapá, Odila aprendeu a cozinhar muita comida caseira, vivendo em uma casinha de madeira cercada de plantas. Elzinha não acreditava nos chás que Odila fazia, mas comia de bom grado a comida de um jeito que nem a sua mãe fazia quando Elzinha ia almoçar uma vez por ano na casa dos pais. A casa também não podia reclamar, ficou até cheirando a lavanda de tanto Bom Ar que Odila espirrava cantando alguma música junto com o rádio.

Mas a sabedoria de Odila não estava preparada para todas as coisas novas que via na cidade grande, e o coração de Elzinha não estava preparado pra todas as coisas que viriam a seguir. As 15 pras 8 do dia 24 de abril entrou no seu apartamento, e quando foi descalça pra cozinha, viu o bilhete escrito com a mão semi-analfabeta de Odila, ao lado de Roberto Augusto irreconhecível: “Acho que reguei ele demais dona Elzinha!”.

Desde então, Elzinha não acredita mais em Odila, mas ainda come sua comida, sempre com medo de achar algum espinho de Roberto Augusto perdido por lá.

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