Já faz um tempo que eu estou me vendo deitado, jogado, a apenas alguns passos daquilo que, dizem, é a minha alma, provavelmente alma penada, ou peluda. Um tempo deve significar uns 5 dias, já é o suficiente pra um cachorro que já não cheirava muito bem vivo começar a cheirar mais mal ainda.
Passei a minha vida inteira sem querer ser cachorro, vendo os humanos ora do lado do parque que dava na favela, ora passando em carros caros no lado do parque que dava pro shopping. Não entendia muito bem como os humanos podiam ser tão diferentes assim, eles conseguem até fazer os cachorros serem diferentes: se não existissem humanos, todos os cachorros iam ser fedidos e famintos que nem eu, e ai aquelas peludas cheias de frufru iam brincar comigo ao invés de me olhar com cara de desprezo da janela do carro. Verdade seja dita que eu era feliz algumas vezes, quando podia ir no parque e chegar bem perto do lago antes de algum guarda chegar, mas queria mesmo era ser humano, e ter esse poder todo.
Estranho que mesmo eu querendo ter sido humano, ainda não consigo sair daqui, não consigo parar de olhar praquele saco de pulgas com umas moscas rondando, e sentir falta de estar ali. Fico até condenscendente, será que eu não merecia pelo menos não ficar ali apodrecendo ao léu? Talvez eu não mereça mesmo, minha única utilidade foi passar pulgas para a Bia (a poodle que fugia de casa algumas vezes; tivemos um rápido envolvimento físico, porém não amorso) e sujar os jardins que os homens da prefeitura plantaram aqui. Eu me divirto mesmo com a reação das pessoas ao passar por aquele resquício de mim. Uns fazem cara de nojo, a maioria cutuca o do lado, aceleram o passo. As mães tampam os olhos das criancinhas, e eu ousaria dizer que já vi até alguns com lágrimas nos olhos. Eu não culpo ninguém, parece que a cada dia o cheiro fica pior.
Antes de eu morrer, parecia que eu já sabia que tudo ia acabar mesmo. Não tinha mais a força e nem a vontade de antes. Mas, num ímpeto de rebeldia, talvez força final dos últimos dias, resolvi realizar o meu último desejo, ir até a eldorado dos vira-latas, um lugar onde nenhum cachorro jamais ousou chafurdar: o lixo do shopping, da praça de alimentação, do cheiro gostoso que dava pra sentir na parte de trás do paredão, daqueles caminhões que, eu tenho certeza que eram de comida mesmo, adentravam lá aos montes, todos os dias, o cheiro da satisfação.
Elaborei um plano. Veja, eu sou um cachorro, mas eu penso sim, até biografia estou fazendo! Voltando ao plano, na segunda a tarde tomei um banho no lago que se formou na rua depois da chuva, pra parecer mais doméstico, sabe? E, assim como um kamikaze, juntei o maior fôlego possível e saí em disparada. Entrando pela porta menor, a que as pessoas que compram não usam, corri em disparada, seguindo apenas aquele cheiro maravilhoso , aí os humanos já começaram a gritaria. Cachorro, vira-lata, pega esse pulguento, ai minhas roupas, vai sujar tudo! Eu alheio a tudo isso, me sentindo como um astro de cinema, corria, altivo, meio capenga, mas altivo. Então eu vi: o lixo mais cheiroso do mundo.
Era assim que o Céu deveria cheirar (engraçado isso, visto que eu já morri e nada de céu ainda, muito menos de cheiro), e eu não tive muito tempo antes dos seguranças chegarem. Foi o suficiente pra mergulhar naquilo tudo. Tantos sabores, tantas cores, tanta comida jogada fora! Abocanhei o máximo que consegui, mas meu corpo já estava tão fraco que não aguentou tanta comida. Enquanto eu ia, meio sonolento, sendo arrastado pelos seguranças e jogado de novo na rua, de onde iria cambaleando até esse cantinho de jardim, sentia o cheiro mais sublime de todos até então: o cheiro da vitória.