O dia da revolução

Outubro 15, 2009

Hoje eu não quero conversa mole.

Hoje eu não quero os mesmos assuntos fúteis de sempre.

Não quero a mesma vida mecânica, a mesma fumaça.

Hoje eu não quero ver nada, hoje eu quero fazer.

Quero questionar, quero mudar.

Mesmo que amanhã tudo continue no mesmo lugar.


Onirismo Profissional

Outubro 8, 2009

Não saiu, não gritou, não bateu, tampouco moveu a boca e os dentes cerrados. Até gostaria, mas se contentou em passar pelo corredor com os músculos retesados e fechar os dedos da mão, pronto para o combate. Um combate inexistente e, caso existisse, seria perdido. Ia deixar passar, precisava do emprego. Tinha uma esposa, dois filhos e uma sogra gorda pra sustentar. Ia deixar passar sim, mas da próxima levantaria a voz. Da próxima não só levantaria a voz, mas diria umas belas verdades ao chefe esquálido e angular que se misturava à sua sala assim como a mobília cara e imponente. Da próxima vez jogaria tudo pro alto, pediria demissão, e aí sim o chefe ficaria sem reação e imploraria para ele ficar. Ele, altivo, diria que não, que não suportaria nem mais um minuto daquela humilhação constante e do salário ridículo. Falaria assim mesmo, ri-dí-cu-lo. O chefe não ia querer nunca que ele fosse, mas ele ia. Da próxima vez, ele ia mesmo. E não voltaria nem para assinar a rescisão. Da próxima vez ia dizer ao chefe que de nada valia aquele escritório bonito e o carro bacana. Não se importava nem com as casas na praia, não precisava disso. Da próxima vez, na verdade, diria ao chefe para engolir tudo aquilo que ele estava indo embora com a sua humilde felicidade. Não diria nada disso no palavreado bonito e floreado que o chefe teimava em usar, diria isso no palavreado comum a todos os funcionários sentados na calçada no intervalo sagrado do almoço. Da próxima vez, terminaria todo o seu discurso com uma meia volta elegante e uma cusparada no chão de mármore do escritório do chefe. E bateria a porta ao sair. Mas isso tudo da próxima vez, por que agora precisava se concentrar em terminar o atrasado relatório de vendas do mês. “Da próxima vez não quero mais saber de atrasos!”, disse o chefe com a cabeça pra fora da sala, enquanto ele maquinava o que faria na sua próxima vez, aquela que nunca chegaria.


Da personificação e nossa mania de psicologizar tudo

Maio 19, 2009

Eu personifico coisas, eu faço neologias. Não é porque as coisas sobre as quais eu quero falar não existem e eu preciso inventá-las ou dar forma a sentimentos para torná-los mais fáceis de lidar. Não é porque a minha vida não é interessante e eu tenho uma auto estima baixa, então eu preciso falar sobre coisas que não são reais e contar histórias que não são minhas. Percebam aí um trauma de quem detesta gente que fala que tudo na vida tem um fundo psicológico (daí a palavra mal-inventada do título, caso não esteja óbvio o suficiente).

Talvez seja por isso de sempre achar que as pessoas vão ver um outro sentido no que eu escrevi que eu repita muito as palavras, ou talvez seja só porque fique mais bonito no texto. Eu personifico coisas. Talvez porque seja bonito personificar também, afinal o que é mais legal: o amor como um sentimento sem cor e sem definições ou como um homem gordo e inconveniente que se mete em cada espaço do seu mundo sem pedir licença?

Eu personifico coisas, e repito. Ah, eu invento histórias também. Fico imaginando o mundo que existe na minha cabeça, onde mora tanta gente (gente personificada, fique bem claro) e parece que sobra tanto espaço também. Fico imaginando o mundo que tem na cabeça de cada pessoa, e como cada pessoa é tão infinita e é praticamente um crime definir alguém. Mas isso seja talvez uma desculpa para eu mesma não querer me definir. Um chove-não-molha eterno, onde cada hora eu sou o que eu quiser, ou era, ou serei de novo ou ainda vou ser. Uma contradição, uma não, várias, tão difíceis de se fazer entender como esse texto.

Quando eu escrevo não sou só eu (e eu não sou esquizofrênica), são vários eus trabalhando em uma linha de produção bagunçada e falha na minha cabeça, que vomita de repente histórias inteiras, que às vezes não significam nada e eu gosto de como as pessoas dão significados diferentes pra isso. Não gosto de análises psicológicas, mas gosto das pessoas verem sentido nos mundos que eu crio. E talvez nesses pedaços de mundo, nesses textos profundos sem querer eu mostre quem eu sou, mesmo que esteja dividido em um milhão de pedaços. Cabe a quem julgar interessante montar, porque a mim, sinceramente, não interessa nem um pouco. Por isso, eu personifico coisas. Para não personificar a mim mesma.


Uma Fábula Moderna

Maio 11, 2009

No princípio, Deus criou do barro o Amor, à sua imagem e semelhança, e viu que era bom. E o Amor sempre está por aí chorando, ou sorrindo sozinho, ou sendo atropelado. A Inveja é uma mulher bonita, mas mal cuidada, não tem espelho em casa, e vive furando pneus do carro da Satisfação, ela sempre faz isso de certa forma influenciada pelo Humor. O Humor é um senhor grisalho, ciente de seu poder e equilibrado, sempre ocupado influenciando decisões ou incentivando atos descabidos, ou não. Sábio como é, coube a ele a responsabilidade de cuidar do casal de gêmeos que sua mulher, a Ironia, havia acabado de parir: Bom Humor e Mau Humor.

A Ironia não viu graça nenhuma quando as duas crianças mostraram que eram mesmo aquilo para a qual haviam nascido: o Bom Humor fazia os velhinhos nas praças rirem à toa, e os seus colegas da escola adoravam rir quando ele fingia algum tombo. O Mau Humor, por sua vez, não achava graça em nada daquilo, e já tinha enraizada no seu rosto uma expressão carrancuda de quem muito reclama da vida. O Mau Humor era melhor amigo do Sarcasmo, cresceram juntos, vendo como o Bom Humor se destacava em meio ao mar de risadas que sempre provocava em todos.

A coisa foi crescendo e o Bom Humor virou um astro, protagonizou séries de TV e foi capa de revistas internacionais. Os papparazzi, os fãs, o Bom Humor não tinha mais paz, todos queriam ser engraçados como ele. Um dia o Bom Humor, numa atitude que é considerada até hoje como a primeira falha da Criação Divina, não sorriu quando saia de um restaurante. Pelo contrário, avançou contra o fotógrafo e jogou um pedaço de bisteca que foi parar bem na testa do pobre coitado. Ninguém achou graça. O Bom Humor ganhou fama de vilão, Deus, sendo o Todo-Poderoso das empresas de comunicação, cancelou os programas feitos por ele e o deixou deprimido. A Ironia viu que, enfim, as coisas estavam ficando interessantes naquela pasmaceira em que viviam.

A população não ria mais do Bom Humor, que por um tempo até tentou contar piadas de boa índole em praça pública por alguns trocados. Mas a Risada, velha companheira, já o tinha abandonado e arrumado novas companhias. Andando com Sarcasmo e Mau Humor, antes escorrraçados dos círculos sociais, a Risada foi aos poucos mudando a imagem do gêmeo magricela: era engraçado agora o que era ruim. Os absurdos eram engraçados, o humor negro começou a dar audiência e as pessoas assistiam no Youtube milhares de vezes o vídeo do Mau Humor reclamando da vida ao acordar. Deus ficou surpreso ao ler nos jornais sobre o novo tipo de humor que havia nascido, quem ousaria mudar tudo o que tinha sido criado por Ele? O Bom Humor virou motivo de chacota e, sendo agora a aberração que é, trabalha como escrivão num cartório do centro da cidade. Burocracia de segunda a sexta, sem graça nenhuma.

O Mau Humor agora anda em carros conversíveis e dá entrevistas reclamando das suas mansões espalhadas pelo mundo inteiro ou de como é surreal uma pessoa chamada Mau Humor ganhar a vida como comediante. A Ironia, agora uma mãe luxuosa e popular, ri da situação e vive dizendo a todos com o maior ar de sabedoria sobre como a vida é mesmo um mar de opostos e contradições. E por isso mesmo é tão engraçada, e mau humorada.


Ironia Fina

Março 19, 2009

O cúmulo da ironia seria

a) A repórter Ananda Apple em uma reportagem sobr preço de frutas. (Hoje no SPTV 1ª edição).

ou

b) Eri Johnson e a sua nova estréia teatral: “Eri Pinta Johnson Borda” ?

E que pinta!

E que pinta!


Memórias Póstumas de Brás Pulgas.

Março 17, 2009

Já faz um tempo que eu estou me vendo deitado, jogado, a apenas alguns passos daquilo que, dizem, é a minha alma, provavelmente alma penada, ou peluda. Um tempo deve significar uns 5 dias, já é o suficiente pra um cachorro que já não cheirava muito bem vivo começar a cheirar mais mal ainda.

Passei a minha vida inteira sem querer ser cachorro, vendo os humanos ora do lado do parque que dava na favela, ora passando em carros caros no lado do parque que dava pro shopping. Não entendia muito bem como os humanos podiam ser tão diferentes assim, eles conseguem até fazer os cachorros serem diferentes: se não existissem humanos, todos os cachorros iam ser fedidos e famintos que nem eu, e ai aquelas peludas cheias de frufru iam brincar comigo ao invés de me olhar com cara de desprezo da janela do carro. Verdade seja dita que eu era feliz algumas vezes, quando podia ir no parque e chegar bem perto do lago antes de algum guarda chegar, mas queria mesmo era ser humano, e ter esse poder todo.

Estranho que mesmo eu querendo ter sido humano, ainda não consigo sair daqui, não consigo parar de olhar praquele saco de pulgas com umas moscas rondando, e sentir falta de estar ali. Fico até condenscendente, será que eu não merecia pelo menos não ficar ali apodrecendo ao léu? Talvez eu não mereça mesmo, minha única utilidade foi passar pulgas para a Bia (a poodle que fugia de casa algumas vezes; tivemos um rápido envolvimento físico, porém não amorso) e sujar os jardins que os homens da prefeitura plantaram aqui. Eu me divirto mesmo com a reação das pessoas ao passar por aquele resquício de mim. Uns fazem cara de nojo, a maioria cutuca o do lado, aceleram o passo. As mães tampam os olhos das criancinhas, e eu ousaria dizer que já vi até alguns com lágrimas nos olhos. Eu não culpo ninguém, parece que a cada dia o cheiro fica pior.

Antes de eu morrer, parecia que eu já sabia que tudo ia acabar mesmo. Não tinha mais a força e nem a vontade de antes. Mas, num ímpeto de rebeldia, talvez força final dos últimos dias, resolvi realizar o meu último desejo, ir até a eldorado dos vira-latas, um lugar onde nenhum cachorro jamais ousou chafurdar: o lixo do shopping, da praça de alimentação, do cheiro gostoso que dava pra sentir na parte de trás do paredão, daqueles caminhões que, eu tenho certeza que eram de comida mesmo, adentravam lá aos montes, todos os dias, o cheiro da satisfação.

Elaborei um plano. Veja, eu sou um cachorro, mas eu penso sim, até biografia estou fazendo! Voltando ao plano, na segunda a tarde tomei um banho no lago que se formou na rua depois da chuva, pra parecer mais doméstico, sabe? E, assim como um kamikaze, juntei o maior fôlego possível e saí em disparada. Entrando pela porta menor, a que as pessoas que compram não usam, corri em disparada, seguindo apenas aquele cheiro maravilhoso , aí os humanos já começaram a gritaria. Cachorro, vira-lata, pega esse pulguento, ai minhas roupas, vai sujar tudo! Eu alheio a tudo isso, me sentindo como um astro de cinema, corria, altivo, meio capenga, mas altivo. Então eu vi: o lixo mais cheiroso do mundo.

Era assim que o Céu deveria cheirar (engraçado isso, visto que eu já morri e nada de céu ainda, muito menos de cheiro), e eu não tive muito tempo antes dos seguranças chegarem. Foi o suficiente pra mergulhar naquilo tudo. Tantos sabores, tantas cores, tanta comida jogada fora! Abocanhei o máximo que consegui, mas meu corpo já estava tão fraco que não aguentou tanta comida. Enquanto eu ia, meio sonolento, sendo arrastado pelos seguranças e jogado de novo na rua, de onde iria cambaleando até esse cantinho de jardim, sentia o cheiro mais sublime de todos até então: o cheiro da vitória.


Bom senso.

Fevereiro 18, 2009

Eu não sei se bom senso é a mesma coisa que senso comum, talvez dependa de onde você está, por exemplo se o senso comum no (insira aqui um país árabe cujo nome eu não lembro) é que um ladrão tem que ter a mão decepada, isso não quer dizer que haja bom senso (pelo menos o que você acha que é bom senso) nessa atitude.

Enfim, nenhuma parte de mim consegue pensar que há bom senso na cabeça de uma pessoa que tem um celular sem fone de ouvido (ah, essa maravilha da tecnologia) e fica ouvindo a sua musica favorita com o ALTO FALANTE do celular dentro de um ônibus com uma quantidade razoável de pessoas. E o gosto musical varia de músicas eletrônicas (a modinha do psy), black melódico (a modinha do Chris-eu-bati-na-minha-namorada-Brown) e pagofunk (a gíria do momento, pelo menos pra mim). Se você não tem fone de ouvido, caro amigo, NÃO ESCUTE SUAS MÚSICAS em alto em bom som em um ambiente público, meu bom senso e ouvidos agradecem.

Maldita Casas Bahia, que permitiu que qualquer um com disposição a fazer um carnê comprasse um celular com player (mas ninguém precisa saber que meu último celular foi comprado lá também).


Hematomas

Janeiro 23, 2009

Os móveis da sala estão todo dia no mesmo lugar, e mesmo assim eu não tenho a capacidade de apagar a luz do abajur e passar por eles pra ir dormir, sem colidir toda a noite com ao menos alguma coisa que vá me provocar um roxo horrível na perna no dia seguinte.


1 minuto de silêncio

Outubro 15, 2008

Morreu a liberdade de expressão nesse blog.

Minha vó lê esse blog, minha tia-avó lê esse blog, meu padrasto lê esse blog…Até no meu cadastro do trabalho tem o link. Cabou palavrão, cabou referência a bebidas alcoólicas, cabou putaria (OI MÃE! ).

A partir de agora receitas de doces e salgados de liquidificador e comentários sérios sobre a paz mundial. NOT.


Como não emagrecer em 10 lições – ou menos.

Setembro 18, 2008

Texto que comecei a escrever em maio ou abril, e que agora consegui completar graças a minha sabedoria curitibana que preencheu as duas últimas lições.

Daí que eu comecei a trabalhar semana retrasada, sei lá, me sinto muito culpada ficando em casa. Não devia, mas sinto. Mas na verdade achei que ia ser bom, porque tenho que andar um bom trecho a pé pra ir pegar ônibus, então vi uma remota chance de emagrecimento: caminhadas longas + trabalhando o dia todo sem comer besteira em casa = Chloé no peso ideal (já tãão distante….)

Isso era o que eu pensava, mas ao invés de emagrecer… só consegui descobrir como não emagrecer, em lições práticas e didáticas:

1-Trabalhe com amigos – Arrume um emprego na empresa dos seus amigos, onde a coca-cola come solta o dia inteiro, tem resto de pizza quase todo dia, e quando tá chovendo todo mundo pede Mc Donalds pra não se molhar.

2 – Aceite caronas – Melhor ainda, se ninguém te oferecer, peça. Afinal assim você economiza sua meia hora de caminhadinha na subida.

3 – Exercite a arte do Happy Hour - Não vá direto para casa depois do trabalho, se possível, vá jantar depois disso, e encha bastante a barriga de comida (ou de cerveja) para depois chegar em casa e ter a janta pronta te esperando.

4 – Não tenha força de vontade – Sabe aquelas promessas de ano novo? A do peso, não cumpra. Eu prometi ficar sequinha em 6 meses, mas já mandei pro inferno essa meta que eu sei que nunca vou cumprir. Nada de se matricular em academia (a não ser que você só vá 1 vez por mês, aí tudo bem), ir caminhar no parque, e etc.

5 – Ignore a sua saúde – Não importa o que o médico te diga, que você tem que emagrecer pra cuidar do seu joelho, ou que a sua família tem históricos de problemas que o peso pode aguardar, não importa. N-Ã-O-I-M-P-O-R-T-A.

6 – More com a sua vó – Se ela for uma mulherzinha de meio metro de altura que te trata como um mongolóide que precisa ser alimentado caso contrário não come, e que todo dia faz comida suficiente para alimentar uma pequena escola de ensino fundamental mesmo que só morem duas pessoas em sua casa, melhor ainda.

7 – Exercite a arte da preguiça – todas as pessoas “saúde” chegam do trabalho e vão pra academia, ou acordam as 05 da manhã para fazer Tai Chi Chuan. Mas você não. Você vai chegar em casa e vai estar cansado demais pra fazer alguma coisa que exija de você mais do que o movimento dos braços para : 1- pegar o controle remoto; 2- levar o garfo até a sua boca e 3 – eventualmente, tomar banho.

Diferente dos guias para emagrecer, a vantagem de fazer um esforço para não emagrecer é que os resultados, caso você se empenhe, são visíveis (e palpáveis, no caso do seu tecido adiposo) muito mais rapidamente.