Sentimentalismo barato

Novembro 27, 2009

Hoje eu gostaria que você sentasse aqui comigo. Trouxesse duas cervejas e o mar, pra conversa fluir um pouco melhor.

Caso você resolva vir, gostaria também que tivesse um bocado de paciência: pode ser que eu tagarele, pode ser que eu fale sobre o tempo ou pode ser que eu fique apenas me justificando antes de falar mesmo o que eu preciso falar, que eu nem sei direito o que é. Vale avisar que esse tipo de comportamento é bem típico meu.

Por conta de não sabermos direito o tempo que será gasto, escolha para você aquela cadeira de palha confortável na qual você nunca pôde me embalar,  ou será que fui eu que nunca quis ser embalada? Quem sabe no ritmo dela a gente consiga se acertar.

Hoje eu gostaria que o dia não acabasse, mesmo sabendo que é esse o fim, triste ou não, de todos os dias. Gostaria mesmo é de não saber nada. Hoje eu quero ser criança de novo, se é que eu já fui criança um dia, se é que eu já deixei de ser.

Enfim, hoje há tempo para qualquer filosofia de bar. Hoje estão perdoadas a licença poética e qualquer lágrima que porventura escape dos nossos olhos tão treinados a não se deixar trair por qualquer sentimentalismo barato.

Hoje eu quero ouvir suas histórias de infância, mesmo que elas nem sejam verdades, mesmo que nem você seja de verdade, eu não me importo.

Se você não tiver tempo de vir, eu vou estar feliz em saber que você estava ocupado com planos maiores, como sempre esteve (ah, você é tão diferente de mim!). Eu peço pro garçom guardar a cerveja e espero você me ligar.

Eu quis tanto te julgar, esperei toda noite você curar um pouco da monotonia de todos os meus dias. Hoje não quero mais, não quero nem ver você aqui.

E chega desse blá-blá-blá, que o pessoal do bar me olha torto e essa cerveja não tomada já me deixou sentimental demais.


A vida como ela é

Outubro 20, 2009

Não se tem reuniões para ter idéias, conclui Renan depois de mais uma interminável reunião do departamento de criação. Não se cria nada assim, nada de qualidade pelo menos, insistiu o publicitário novato, que ainda queria mudar o mundo do advertising com toda a sua criatividade juvenil.  Só faltou ele chorar quando viu a campanha para uma loja de móveis que saiu do resultado daquela e de muitas outras reuniões de criação. ‘Ou vocês acham que Deus criou o mundo a partir de uma reunião de brainstorm com a Santíssima Trindade, bando de canalhas?’ tentou desesperado causar algum efeito na cabeça daqueles homens sentados com seus gadgets pendurados em portas USB de notebooks caros e com símbolos de fruta.

‘Vendidos!’ bradou Renan, e foi ter aula de violão pra aprender a tocar Raul Seixas. Hoje faz riminhas toscas com palavras em inglês usadas no mercado publicitário na praia de uma cidadezinha bem longe daqui, ninguém entende nada, e por isso não ganha nem um centavo de esmola dos caiçaras do lugar. Erro de público-alvo, se quiser tocar na Paulista eu até te agencio’ diria seu ex-chefe, ou manager, como ele gosta de falar, mas Renan, lá de longe, não escutaria, teimoso que só ele.


O crime da Rua Rolândia

Outubro 20, 2009

     O céu estava nublado naquela noite e a rua era tomada pela garoa insistente que só existe em São Paulo. Um dia que se não existisse não faria a menor falta, quarta-feira de uma semana interminável. As crianças viam TV antes de a mãe assumir o controle para ver a nova novela das oito e Seu Zé, cansado, fumava seu último cigarro do dia após ter jantado na mesinha de quatro lugares que ficava no canto da sala ainda em obras. Mas ninguém poderia prever os acontecimentos que se discorreriam naquela fatídica noite.

      A despeito do marasmo, Tico, o canário de Seu Zé, cantava alegremente, como sempre fazia. Uma canção de resistência frente ao tédio daquela quarta-feira. Como já acostumada ao canto do passarinho, a família foi dormir alheia ao estado de espírito de Tico e preparando-se para uma quinta-feira que seria idêntica a todas as outras quintas-feiras da história da família. Seria, não fosse o duro baque sofrido à noite, revelado pela manhã cinzenta que acabara de nascer.

      Acontece que o Seu Zé tem um vizinho de nome Simba. Simba é um gato tigrado em tons de cinza, desses que só moram na sua casa pra comer e dormir, e passam mais da metade do dia pelas ruas e telhados. Um típico gato vira-lata, como podem comprovar as gatas das casas vizinhas e agora o Seu Zé e sua família também. Naquela quinta-feira, ao levantar, Seu Zé, dando falta do canto matutino habitual de Tico, foi até o quintal para ver porque o pássaro não cantava.

     O que ele viu foi a cena de um crime, pintada claramente no quintal de sua casa: de Tico, só sobraram poucos restos de penas e sangue no chão, enquanto Simba limpava os bigodes a poucos metros dali. Seu Zé tem certeza de que o canário virou refeição e lamenta o fato de não poder ao menos fazer um enterro pra Tico, fiel companheiro de tantos dias entediantes. Mas, ao ser questionado sobre o desfecho da história, Seu Zé diz pra avisar que ainda não acabou, só vai acabar quando ele der cabo ao gato. No trabalho, todos dizem ao Seu Zé que o que resta é comprar outro canário e que é parte da natureza do gato comer passarinhos. Ele não se dá por vencido, quer vingar Tico, enquanto Simba, satisfeito, limpa os bigodes com a barriga pra cima no telhado do lado, comemorando o álibi que a natureza lhe concedeu e mais uma refeição que Seu Zé, sem querer, forneceu.


Cai um mito

Agosto 21, 2009

Pééémmmmm, Pééémmmm. De novo aquele barulho irritante me despertava. 05h40 da manhã e já era a terceira vez que eu adiava o despertador, mas não tinha mais jeito e eu precisava levantar e encarar aquele mesmo tédio de sempre. Vesti-me mecanicamente na meia-luz, fiz a barba meio sonolento, mas logo percebi que não seria um dia comum. A começar pela aranha que eu vi na minha cozinha, e eu moro no 20º andar, um lugar estranho para uma aranha estar, e ela era azul-bebê. Reflexos da noite passada, pensei eu, e sai para o trabalho. Ao cumprimentar o Seu Adamastor, porteiro do prédio, que estava mais sinistro do que o normal aquele dia, com uns óculos Ray-ban e ouvindo um iPod de última geração, dei de cara com outra aranha, dessa vez cor-de-rosa.

Como se não fosse suficientemente estranho ver aranhas coloridas, o meu ônibus passou rapidinho, e vazio. Um ônibus vazio de manhã em Nova York, isso sim era bem mais estranho do que aranha coloridas. Contudo, subi no ônibus, com uma expectativa de que toda aquela estranheza não fosse parar por ali. A cobradora, uma mulher linda com o olho cor de violeta, me deu um sorriso furtivo ao me devolver o troco, com alguns centavos a mais do que o correto e com um bilhete aonde se lia:

Quer passar por baixo da minha catraca? 2547-7777 Beijos, Lu

Olhei para ela como quem não acreditasse que algo assim pudesse acontecer, e imediatamente rasguei o bilhete e o joguei pela janela, certo de que aquilo devia ser algum tipo de armação. Essa atitude foi malvista pela motorista, também mulher, mas com um aspecto mais masculinizado. Tentei bater uma foto desse momento surreal, mas descobri que o aspecto masculino não era à toa quando ela deu uma guinada fortíssima a fim de me fazer bater a cabeça no banco da frente, e a ultima imagem que vi antes de desacordar foi a cobradora rindo, satisfeita em sua vingança.

Acordei num quarto onde havia uma gigantesca aranha fúcsia sentada olhando diretamente pra mim, quer dizer, aranhas têm muitos olhos (ou será que são as moscas?), mas pelo menos quatro deles certamente me encararam. Eu não fazia idéia do que estava fazendo ali, mas logo percebi que devia ser alguma vingancinha idiota da Mariana, uma louca com quem eu tinha tido um breve relacionamento, encerrado após ela declarar que não mais se depilaria, nunca mais. Quando tentei me movimentar, estava amarrado por dois sutiãs parcialmente queimados, numa cama de solteiro. Pajeando a aranha, estavam várias mulheres, gordas, magras, altas, baixas, com um peito só, com cabelos longos, curtos, olhos azuis e olhos de aranha.

 Muita mulher pra um quarto só, o que quer dizer um ruído insuportável e todas falando ao mesmo tempo, e o mais misterioso, todas escutando tudo! Ficavam falando alguma coisa sobre o plano de dominação mundial, de ódio aos homens e um blá blá blá que eu já devia ter escutado em algum programa matinal da TV aberta ou nas minhas aulas da faculdade de jornalismo. Enfim, como eu estava meio grogue ainda, não entendi direito. Só voltei a me recompor quando bolei um plano de ação pra escapar dali:

- Tá bom, entendi que vocês me odeiam só porque eu sou homem, agora o que eu faço pra sair daqui? – de uma genialidade tremenda esse comentário.

 - Nós temos o poder, mesmo quando você sair daqui, um dia você ainda será dominado por uma de nós. O dia em que não houver só substantivos masculinos, o dia em que não formos consideradas histéricas… – e lá se ia mais um discurso de um Marcus Garvey de saias, que durou não sei quanto tempo, mas o suficiente pra eu dormir, acordar, e a aranha continuar falando… – e agora, pra você ser liberado pra voltar a essa vida fútil de macho alfa, temos que deixar você marcado para sempre, pra servir aos nossos propósitos…

-NÃÃÃÃÃÃOOOOOOOOOOOOOOOO

 

Tudo o que aconteceu naquele dia, me mudou para sempre, e as mutações que sofri me trouxeram poderes, e responsabilidades, e um instinto feminino muito aguçado para um macho como eu. Voltei para casa sob circunstâncias que prefiro não revelar, e quem me conhece (e vê minhas tatuagens de aranhas coloridas cerceando partes indizíveis aqui) sabe que não estou mentindo quando conto essa história.

Hoje todo mundo acha que eu sou um puta super-herói, mas ninguém sabe que eu na verdade, faço parte dos planos feminista de dominação mundial, e estou fadado a ser seguido o tempo todo por aranhas coloridas, uma de cada cor. Pros meus amigos íntimos, explico porque odeio o feminismo. Odeio ainda mais quando aquela insuportável da Mary Jane me obriga a salvar ela de algo. Se é mulher independente e vai dominar o mundo, tem que pedir socorro porque então porra?


Carlos, o louva-a-deus ateu

Agosto 10, 2009

Viveu a sua vida inteira até aquele momento (o que devia totalizar uns oito meses, não sei bem quanto tempo vive um louva-a-deus) resignado em sua comunidade, fingindo ser algo que não era, um louvador-de-deus. Carlos era um louva-a-deus sim, de família nobre que habitava árvores em volta de Jerusalém, uma ironia que espantava Carlos mesmo depois dos oito meses de vida naquele lugar, mas, apesar do nome tão óbvio e das mãozinhas que a natureza dispôs em movimento de reza, era ateu.

Veja bem, demorou muito até Carlos se declarar ateu e enfrentar a fúria de toda uma espécie. Desde o seu nascimento, estranhava aquelas mãos juntas e as orações infindáveis que seus pais e parentes faziam o dia todo, antes de comer, antes de caçar, antes de dormir, até antes de acordar se isso fosse possível também. Não se sentia bem, não conseguia acreditar que se de fato existisse um Deus que, sendo deus e gostando de animais, seria mórbido ao ponto de criar um inseto tão inútil quanto ele. Se existe Deus mesmo é egoísmo demais me criar pra não fazer nada além de louvar-a-deus.

Então, firme em seus propósitos, mas temendo sofrer retaliações dos louva-a-deus, famosos por serem fanáticos e por atentados terroristas contra bichos mais profanos como as baratas, Carlos continuou vivendo como um louva-a-deus normal e discreto, mas alimentando secretamente o sonho de se rebelar contra essa religiosidade que nada tinha a ver com ele.

Foi assim até aquele momento, o dia-D como Carlos gosta de contar hoje. No meio de mais uma oração feita pelo seu tio avô Geraldo, tão longa e monótona que se o tio tivesse morrido durante a oração era bem capaz que ninguém tivesse percebido, Carlos saiu de fininho, com uma idéia genial praquelas mãos unidas contra sua vontade. Voou para Sodoma, uma cidadezinha no meio do deserto, parada de besouros beduínos viajantes, conhecida como a Las Vegas Oriental e, já sabendo que o microfone cabia exatamente no vão infeliz de suas mãos, começou a fazer shows em bares de administração e clientela duvidosa, onde belas mariposas costumavam dançar sensualmente e servirem bebidas direto na boca dos mais variados tipos de inseto.

Hoje faz shows de comédia stand-up (sempre com piadinhas sobre ele ser um louva-a-deus ateu), canta Frank Sinatra e sapateia (já que dançar não é possível). Cogita até se inscrever para o Big Brother Oriente Médio, e não teme as críticas vindas dos outros louva-a-deus, já que agora é uma espécie de renegado e se casou com Lisbela, uma aranha viúva negra que, por uma incrível coincidência, também traiu sua natureza e não mata Carlos, que é o seu primeiro (e, ela espera que seja o único) marido.

Sendo assim, Carlos se considera feliz e satisfeito sem precisar recorrer a fé que os seus parentes utilizavam, mas não consegue evitar de dormir todas as noites com as mãos em forma de oração.


Porque eu sou a pessoa ideal para ser a oitava integrante do CQC?

Julho 21, 2009

(eu vou escrever aqui antes, pra ver como sai, e depois eu mando o vídeo, aproveitando alguma coisa daqui.)

Bom, primeiramente porque eu sou engraçada, óbvio. Não que eu seja engraçada quando eu queira, porque nessas horas eu não sou mesmo, geralmente as pessoas riem de mim, e não comigo, o que não desqualifica o humor da coisa.

Sabe, desde pequena eu tentei contar piadas, ser criativa, até poesia eu já tentei fazer, e nada deu certo. Se tem uma pessoa que conta piadas sem graça nenhuma, essa pessoa sou eu, o que provavelmente me qualificaria pra ser integrante do Zorra Total, mas aí eu teria que ser bem gostosa e ficar seminua ou então ser bem gorda e feia, estereótipos nos quais eu não me encaixo porque até nisso eu sou mais ou menos.

Depois, eu acho que eu sou a pessoa ideal porque as coisas mais engraçadas e sem sentido do mundo acontecem comigo, a começar pelo meu nome: Chloé (nossa que bonito é estrangeiro?) SILVA (pff..). E Silva é bem o último, que é pra não ter como esconder no passaporte. E eu já ouvi piadinhas bem sem graça sobre o meu nome então não vou me enveredar no assunto. Outra coisa engraçada sobre mim é que as pessoas me rotulam muito. Sabe aquela amiga ‘doidinha’ que a sua mãe vive perguntando como está? Sou eu. Sabe aquela menina que foi na igreja um tempo e agora as pessoas só comentam sobre o quanto era maluca e agora fez uma tatuagem e mudou de cidade de novo sem saber o que quer da vida? Sou eu. A que quebrou o pé pela milésima vez fazendo algo que não devia estar fazendo? Sou eu de novo! E a que sempre é lembrada por algum vexame e os amigos sempre convidam pra alguma furada porque ela é a unica pessoa que toparia? Aha, opa!

Toda vez que eu conto alguma coisa surreal que aconteceu comigo (e olha que não são poucas) as pessoas reagem como se aquilo fosse a coisa mais normal e esperada vinda de mim. Tipo, se eu conto que quebrei o pé lavando a louça a reação das pessoas não vai ser: “Nossa que absurdo, tadinha!”, vai ser: “Nossa Chloé, de novo!”. Se eu contar aqui, por exemplo, que a minha irmã de 6 anos está vendo um DVD de clipes do Michael Jackson com seus amigos de 6 e 7 anos (e é um DOCUMENTÁRIO em inglês), todo mundo vai falar “Tinha que ser a sua irmã!” (e eu também não vou fazer piadinhas de Michael Jackson + crianças porque cadê a originalidade né!).

Ah, e eu faço jornalismo, não que isso sirva de alguma coisa, só é mais uma fonte de piadas graças à tal história do diploma, mas eu não ligo pra isso já que a minha interpretação de sucesso profissional é passar a vida escrevendo crônicas quando me der na telha na minha casa de frente pro mar fumando charuto e tomando uísque quente, pelada se tiver calor. (mãe, padrasto, avó: a decisão de ler esse blog foi de vocês)

Então acho que é isso, de todas as coisas que eu já provei que não sei fazer (poesia, violão, vestibular pra Medicina, cantar em um coral evangélico, ser atleta, desenhar e dirigir – porque eu já tentei tudo isso, de verdade), acho que a única coisa que me restou é a graça, e esse humor ao contrário que já está embutido em mim. Não que eu ache que humor seja uma coisa que possa me render alguma coisa, já que muitas vezes o engraçado é que eu pense as coisas sobre as pessoas e não consiga guardar pra mim, o que já me rendeu muitas inimizades, tentativas de agressão e risadas de gente que ri da desgraça alheia. Mas, não custa nada tentar.

E agora é você quem diz, teve graça?

 


A árvore sem outono

Junho 5, 2009

Como a arte nasce? Como perceber beleza nas coisas que vemos todos os dias? Como enxergar de fato essas coisas? Díficil responder essas perguntas, dentre as tantas outras que faço, difícil treinar o olhar. Mais difícil ainda foi perceber Terezinha, que, diferente da de Jesus, não foi ao chão.

Faz quatro anos que moro no Edifício Fúlvia, e só agora reparei em Terezinha, roxa, viva, a única coisa que parece respirar nesse frio tão absurdo e contrastante ao sol brilhando lá fora. Terezinha é uma árvore. A única árvore da rua que debocha do outono e se ergue magistral na rua, bem próxima a árvore dos clichês do texto abaixo, que, por ser uma árvore-clichê, já deixou junho secar quase todas as suas folhas. Se ergue magistral é uma hipérbole, uma superestima que na verdade nunca é direcionada a Terezinha. É provavél que ninguém a note, eu mesma só agora reparei na ousadia dela de querer ser uma árvore do contra, a única diferente por aqui. Será que as outras árvores a desprezam por isso? Será que na primavera Terezinha ficará tão sem vida quanto a árvore-clichê está agora? Será que até a primavera a presença de Terezinha ainda será notada por mim que tenho olhos tão destreinados e dispersos?

Sem analogias e sem clichês, Terezinha não precisou de três cavalheiros a acudindo para levantar do chão. Terezinha não caiu, e sorri pra mim toda tarde, com o roxo de suas flores constrastando com o bonito sol de outono, que, como fizesse companhia a Terezinha, também debocha do vento frio e brilha, refletindo a árvore sem outono da calçada em frente ao Edíficio Fúlvia.


Folhas Secas

Maio 27, 2009

A gente passa a vida toda fugindo dos clichês, ou pelo menos as pessoas que se julgam inteligentes fazem isso, ou talvez seja só eu que me ache esperta e diferente demais pra viver clichês. Mas a verdade é que, como se diz por aí, se uma coisa é clichê é porque ela dá certo, é porque ela é verdade. É um saco, porque sabendo disso, todas as nossas expectativas sobre como somos únicos desaparecem.

Por exemplo, quando um amor acaba. Você vai, chora, grita e sempre tem alguém que te fala ‘vai passar’ ou ‘o tempo cura tudo’ aí você pensa que a pessoa é uma idiota e nunca sentiu o que você sente. Mas é verdade, passa mesmo, não importa o quê. Eu até pensei outro exemplo pra não ser tão clichê assim falando de amor, mas não tem jeito, porque a maioria dos clichês fala de amor e o amor é a coisa mais cafona e clichê do mundo. E talvez por isso mesmo que eu evite falar de amor, porque parece óbvio demais, um destino a qual todos estamos fadados. Mas hoje eu vou me entregar a todos os clichês, afinal, pra quê resistir?

Outro clichê que é bem irritante e bem verdade, são as borboletas. Aliás, borboleta é uma fonte inesgotável de clichê e cafonice. Dizem que a gente tem que cuidar do jardim em vez de correr atrás das borboletas, mas ninguém tem um clichê de como fazer o tempo passar mais rápido e as borboletas malditas virem até nós. Dizem também que quando você se apaixona sente borboletas no estômago, e isso é verdade, mas como eu odeio clichês eu costumo dizer que tem um carrinho de montanha russa desgovernado no meu estômago, bem mais legal.

Mas tem um clichê que não teve como eu não me render ao abrir a janela da sala hoje a tarde. Está chegando o outono, e a árvore daqui da frente do meu prédio que a há dois meses estava toda florida de flores laranjas (florida de flores sim, porque não?) agora está só com umas poucas flores resistentes, e a calçada está coberta de folhas nos tons mais variados de verde. E aí deu pra refletir sobre como tudo é um ciclo mesmo, que as folhas secas precisam cair pra outras novas nascerem, que a árvore precisa passar uns dias sem folhas e flores pra abrir espaço pra florescer de novo e querer isso. E que cada uma dessas fases é necessária e tem sua beleza.

Os clichês estão aí, sendo vomitados pra gente o tempo todo. Dá pra correr deles, mas certamente não dá pra se esconder, uma hora eles te alcançam, e fazem cair toda ilusão que exista de que somos únicos e especiais demais pra viver como os nossos pais viveram. Ainda bem que os meus clichês são todos felizes.


Uma Fábula Moderna

Maio 11, 2009

No princípio, Deus criou do barro o Amor, à sua imagem e semelhança, e viu que era bom. E o Amor sempre está por aí chorando, ou sorrindo sozinho, ou sendo atropelado. A Inveja é uma mulher bonita, mas mal cuidada, não tem espelho em casa, e vive furando pneus do carro da Satisfação, ela sempre faz isso de certa forma influenciada pelo Humor. O Humor é um senhor grisalho, ciente de seu poder e equilibrado, sempre ocupado influenciando decisões ou incentivando atos descabidos, ou não. Sábio como é, coube a ele a responsabilidade de cuidar do casal de gêmeos que sua mulher, a Ironia, havia acabado de parir: Bom Humor e Mau Humor.

A Ironia não viu graça nenhuma quando as duas crianças mostraram que eram mesmo aquilo para a qual haviam nascido: o Bom Humor fazia os velhinhos nas praças rirem à toa, e os seus colegas da escola adoravam rir quando ele fingia algum tombo. O Mau Humor, por sua vez, não achava graça em nada daquilo, e já tinha enraizada no seu rosto uma expressão carrancuda de quem muito reclama da vida. O Mau Humor era melhor amigo do Sarcasmo, cresceram juntos, vendo como o Bom Humor se destacava em meio ao mar de risadas que sempre provocava em todos.

A coisa foi crescendo e o Bom Humor virou um astro, protagonizou séries de TV e foi capa de revistas internacionais. Os papparazzi, os fãs, o Bom Humor não tinha mais paz, todos queriam ser engraçados como ele. Um dia o Bom Humor, numa atitude que é considerada até hoje como a primeira falha da Criação Divina, não sorriu quando saia de um restaurante. Pelo contrário, avançou contra o fotógrafo e jogou um pedaço de bisteca que foi parar bem na testa do pobre coitado. Ninguém achou graça. O Bom Humor ganhou fama de vilão, Deus, sendo o Todo-Poderoso das empresas de comunicação, cancelou os programas feitos por ele e o deixou deprimido. A Ironia viu que, enfim, as coisas estavam ficando interessantes naquela pasmaceira em que viviam.

A população não ria mais do Bom Humor, que por um tempo até tentou contar piadas de boa índole em praça pública por alguns trocados. Mas a Risada, velha companheira, já o tinha abandonado e arrumado novas companhias. Andando com Sarcasmo e Mau Humor, antes escorrraçados dos círculos sociais, a Risada foi aos poucos mudando a imagem do gêmeo magricela: era engraçado agora o que era ruim. Os absurdos eram engraçados, o humor negro começou a dar audiência e as pessoas assistiam no Youtube milhares de vezes o vídeo do Mau Humor reclamando da vida ao acordar. Deus ficou surpreso ao ler nos jornais sobre o novo tipo de humor que havia nascido, quem ousaria mudar tudo o que tinha sido criado por Ele? O Bom Humor virou motivo de chacota e, sendo agora a aberração que é, trabalha como escrivão num cartório do centro da cidade. Burocracia de segunda a sexta, sem graça nenhuma.

O Mau Humor agora anda em carros conversíveis e dá entrevistas reclamando das suas mansões espalhadas pelo mundo inteiro ou de como é surreal uma pessoa chamada Mau Humor ganhar a vida como comediante. A Ironia, agora uma mãe luxuosa e popular, ri da situação e vive dizendo a todos com o maior ar de sabedoria sobre como a vida é mesmo um mar de opostos e contradições. E por isso mesmo é tão engraçada, e mau humorada.


Uma nota figurativa e rápida sobre o amor.

Abril 23, 2009

O Amor veio. E ficou. Sentou na minha poltrona favorita com o controle remoto na mão e me olhou com cara de desdém. Folgado, não pediu licença, tirou o sapato, jogou fora os meus cigarros e mudou a decoração da sala.

O Amor ficou. E insistiu. Fez eu perder a hora pro trabalho e a vontade de ir pra casa, só pra não encontrá-lo lá. Não adiantou, me seguiu.

O Amor quis ir embora um dia. E foi mesmo. Não deixou nem um bilhete, bem quando eu já estava acostumando com o jeito dele de guardar a manteiga na geladeira. Foi de uma vez.

O Amor me machucou. E doeu. Dia desses fui descer da cama e tropecei num chinelo que o danado tinha esquecido em casa. Me deixou um galo na testa. Uma marca de amor, do Amor que foi embora sem pedir licença e deixou um incômodo maior do que a sua presença, se é que isso é possível.

O Amor marcou. Na minha testa e no vaso de hortênsias que ele insistiu em comprar e eu ainda não tive coragem de jogar fora. Um dia ele volta, mas eu vou estar sentado na sala, e com um chinelo displicentemente jogado na sala, pra vê-lo se estabacando no chão.

O Amor, caso apareça, sofrerá a minha vingança friamente calculada. Mas no fim, é o Amor quem vai rir de mim.