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Geração perdida

Somos uma massa falida. O teste, o intervalo entre gerações passadas e o que vem amanhã. E o que vem amanhã? Será que vem uma máquina de fazer carinho? Já me contaram até que os dedos vão encurtar porque com as pontas deles vai dar pra fazer tudo. E pra entrelaçar as mãos?


Sou uma perdida abraçando com gosto a causa da juventude transviada. Dos que não valem nada.  Me agarro a um tempo que não vivi pra justificar minha inconsequência e prefiro fechar os olhos pras preocupações. Deixa pra outra hora…  Uma perdida num texto perdido, juntando fragmentos de pensamentos que são só lampejos no meio da correria que mata qualquer processo criativo.

É por isso que eu topo qualquer desvio no caminho. Prefiro garantir a cerveja na geladeira do que um creme novo pra passar no rosto. Não perco a oportunidade de fazer algo que resulte em uma ressaca moral que se mistura à ressaca normal. Não me arrependo. Esse é meu grito de liberdade. Dias conturbados entre fluxos, processos, textos, pautas, sono, viagens de metrô e noites mal dormidas.

Somos uma massa falida. E o que vem amanhã? Tanto faz…

Pílulas de amor

Seis da tarde e o tempo de São Paulo mudou em questão de minutos, como sempre. A névoa e o frio nem são tão perceptíveis no embolado de gente esperando o trem na plataforma da estação. Ali, fones de ouvido, gente falando no celular, alguns tentando ler e o guardinha ficando maluco tentando impedir as pessoas de ultrapassarem a linha amarela. E uma mulher, devia ter lá seus 29 anos, de cabelos cacheados, óculos e uma estrutura atarracada digitava o seguinte SMS: “Só posso parabenizá-la por ter conquistado seu coração”.

*

Quase na hora de dormir, depois daquele lenga-lenga doído que se arrasta pela noite toda, ele ofereceu metade do sofá. Vai que era pra testar se conseguiam mesmo deitar juntos. Ela, sabendo que não era magrinha, deitou e perguntou.

- Tô te esmagando aí?

- Não, eu sou de dormir em cantinho.

Foram para a cama e a conchinha funcionou. Com o sono agitado, se desvencilhavam e mudavam de posição. Mas, vira e mexe estavam grudados: pelas costas, pelos ombros, pelas pernas. Ela também era de cantinho. Ambos encolhidos em seus cantos que, no fim, eram demarcados no começo do corpo do outro. Tiveram que se separar. Incompatibilidade.

*

Era um casal impestuoso. Naquela manhã, pegaram o metrô pro trabalho. Na estação Sacomã, ainda sonolentos, encostavam-se um no outro entre pequenas cochiladas. Algumas palavras ríspidas causaram uma discussão calorosa e lacrimosa até a estação Santos-Imigrantes. Até Ana Rosa, faziam as pazes em beijos calorosos. Até que ela virou a cara de novo. A situação ficou crítica, visto que o moço já ia descer no Paraíso, próxima estação. Tentaram de tudo, mas é como se falassem línguas diferentes e o tempo se esgotando naqueles poucos metros, sem tempo de parada para aguardar a movimentação do trem a frente. Ele desce e ela chora até a Consolação, na falta de um trocadilho pior pra fazer.

 

Da sala de aula

De Vagar

Não tenho mais pressa. Nem espero mais amor, quiçá até das ligações eu desisti. Espero momentos. Torço por pequenas pílulas aonde tempo e espaço são meros conceitos superados e distantes, diminutos perante a luminosidade dessa brecha milagrosa. Lugares e situações praticamente hipotéticas que, não fossem as marcas no corpo ou espalhadas pela casa, poderiam até ser irreais. Sonhos, escapes inconscientes da mente cansada.

Não é ele. Também não é você. Em alguns momentos acho que não sou nem eu. São as emoções. O frio na barriga, nos momentos bons o arrepio, o calor. Nos comuns, a decepção. A inevitável e invisível presença do depois. De repente, o amor não me pertence mais. Vai o amor. Vão os rostos e mais rápido ainda o conteúdo dos copos. Ah, os copos. Vai-se o conteúdo, ficam sempre os copos. Vai o amor, vão-se os momentos, acabam os cigarros. Mas os copos… Ah, os copos…

Mesa de bar

Garçom, por favor enche esse copo. Enche que hoje eu quero ficar aqui. Não precisa trazer dois. Não, é isso mesmo. Hoje não vem ninguém. Somos apenas eu, você, essa mesa dobrável, os azuleijos sujos do banheiro e meu copo.

Peraí, não precisa me olhar com essa cara condescendente. Fique tranquilo, hoje essas paredes repletas de quadros amarelados e pó vão me acobertar enquanto eu e minha cabeça – que pesa o mundo – ficamos aqui vendo o tempo passar.

É isso mesmo que você entendeu. Acordei com uma ressaca dos diabos e o firme propósito de assistir o tempo passar.Ô, mas é claro que dá. Se não der, não tem problema, a gente sabe que ele passa mesmo assim. Faz essa cara não, já estive bem mais louco. Só que hoje eu acho que esses guardanapos (aliás, já reparou que guardanapo de boteco não limpa nada?) vão ser uma melhor companhia do que essa gente safada que tem por aí.

Hoje eu não quero ouvir fofocas, não quero saber se foi pênalti ou não nem gastar saliva com gente que vem hoje pra ir embora amanhã sem deixar rastros.

Vou torcer pro rádio tocar uma música boa, fazer um brinde com a minha garrafa, pra cerveja não faltar, sentar com meus fantasmas e lembrar pra sempre desse dia.

Agora, seu garçom, o senhor me dê licença faz favor que o senhor já tá atrapalhando meus planos com tanta pergunta.

A separação

Ele arrumou as malas e fez questão de não a esperar acordar. Pra rechear as valizes, escolheu preferencialmente o que sabia que ia fazer mais falta pra sanidade dela. Não porque a odiasse, mas queria dar uma lição nela, queria mostrar que era importante. Se essa pequena achava que podia ignorar minha existência comigo bem ali do lado, ia ver só. Quero ver se virar sem mim.

Ela acordou e, acostumada que estava a ignorar solenemente sua presença, fez o de sempre. Levantou, escovou os dentes. Ao sair de casa, percebeu que o celular tinha ficado ao lado do travesseiro. Não voltou pra buscar. Ao voltar do trabalho (que já não tinha sido lá essas coisas), encontrou um amigo e se impressionou ao ver no seu braço esquerdo uma tatuagem que não estava lá antes. “Mas eu tenho essa tatuagem há anos!”, disse o cara.

Ele, mesmo longe, sabia o que estava acontecendo. Sabia porque, ao deixá-la, já tinha a certeza da falta que faria. Por isso, sentia agora a satisfação de finalmente afetá-la, a satisfação que todos sentimos ao perceber que nossa ausência é sentida mesmo por alguém que nunca demonstrou se importar com a presença. Aliás, muito pelo contrário, ela fazia questão de demonstrar que não precisava dele, em cada pequena atitude do dia-a-dia, como escolher passar o sábado vendo TV como um zumbi e ignorar a fome que ele sentia. Agora, observando de longe com um drink na mão, ele lembra com quase dó (dela, claro), de quando pedia que ela pelo amor de deus pendurasse um quadro na parede, saísse pra ver um filme e ela mal olhava, se é que ouvia.

Ela não sabe mais pensar. Tem a consciência disso. Embora a consciência seja apenas um reflexo quase institivo nesse caso, já que ele não está mais lá para ajudá-la nos momentos de fazer conexões e reflexões, ela tem certeza de que algo lhe falta. Essa sensação é a mesma de um animal irracional que vê sua casa destrúida de repente: ele não raciocina que lhe tiraram algo, mas sabe que esse algo deveria estar ali. Ela sente a sua falta quando se vê cometendo erros primários de português, mas principalmente quando abre a geladeira e esquece subitamente o que ia pegar. Se sente mal, inquieta, mas não vê que é justamente ele que lhe falta.

Ele não quer redenção. Não espera que ela lhe procure. Ela já perdeu a capacidade de implorar por sua volta. Ele não busca em outros corpos o que não encontrou nela. Busca em copos, a mesma coisa que ela faz, inconscientemente, quase um espelho dos movimentos dele.

Ela mal conseguiria entender se presenciasse a seguinte cena: ele dançando livre, longe dos avisos e das cobranças. Leve, quase flutuando.

Ele ri. Justiça foi feita.

Acabou, acabou! É do Brasil!

é teeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeetra né gente

Eu pensei que todo mundo fosse filho de papai noel. Mentira, eu nunca pensei isso porque nem me lembro de ter acreditado um dia no bom velhinho.

Cá estava eu com os meus botões lendo o post-balanço de 2010 e mentindo descaradamente para mim mesma sobre como esse ano eu ia fazer uma crônica legal com o tema ~espírito natalino~. O problema é que meu humor de natal tá mais pra isso aqui esse ano, então eu resolvi fazer o que eu faço de melhor: expor minha vida indevida e indiscriminadamente.

Eu já ouvi que sua virada de ano determina como será o ano todo. Isso nunca deu certo, porque eu estava meio bêbada na maioria das últimas viradas e se eu ficasse assim ininterruptamente o resto do ano eu não ia ficar choramingando tanto assim. Nunca deu até esse ano, porque eu comecei 2011 fazendo o que eu faria durante muitos dos outros dias: trabalhando. Isso mesmo: vendo o Fiuk “cantando” I Got a Feeling (pelo menos a do Black Eyed Peas e não do Beatles) pra uma multidão de gente e tomando champanhe barato na sala de imprensa. Não que eu possa reclamar, já que tirei a maior onda e o trabalho de 2011 até que valeu a pena.

Falando em trabalho, esse ano eu realizei um dos sonhos da minha vida (nossa, como isso soou coxinha). Consegui um estágio na Abril, ou você pode chamar também de o prédio mais sensacional da Marginal Pinheiros. Tenho pai médico, mãe enfermeira, padrasto psicólogo e jurei que nunca ia trabalhar com saúde, mas adivinha só pra que revista eu escrevo? Sim, você acertou. Isso não é ruim, pelo contrário, trabalhar escrevendo é tão sensa que eu não posso nem falar disso muito tempo pra não parecer efusiva demais.

Dois mil e onze… Fiz 21 fucking anos e moro sozinha. Com mamãe longe por iniciativa própria (dela, é claro. brincadeira mãe ~ não chora), pago condomínio, luz, internet, lavo minhas próprias calcinhas e sei até fazer feijão. Passar por isso foi uma das melhores coisas que aconteceram comigo e até hoje, 8 meses depois, eu dou risada sozinha de pensar que no fim do dia vou chegar na minha casa. Mãe, irmã, padrasto, amo vocês, mas feels so good to be free.

Voltando às letras e frases, esse ano eu montei um blog com dois amigos e aprendi que, mesmo falando de neurônios e glândulas hormonais, não preciso deixar de escrever sobre livros e músicas que eu gostaria muito e muito que você conhecesse. Veja lá se não vale a pena perder uma horinha do dia com tantas obras primas. Dostoiévski, Chris McCandless e Aldous Huxley conseguiram me dar um nó na cuca esse ano, mas você pode saber mais sobre isso lá no blog. Muitas vezes eu me senti como se tivesse em outra época, mergulhando em vidas tão diferentes. Hoje, por exemplo, acabei de ressuscitar cheia de saudosismo (injustificado, já que eu era uma pirralha) da década de 90 e terminei Heavier Than Heaven, a biografia do Kurt Cobain.

Esse ano eu me sinto também assim. Um pouco velha demais. Não entendo mais porque fazer faculdade, a não ser pra esfregar na cara dos meus professores coxinhas que eu descolei um estágio da hora e não graças a eles. Até mesmo porque eu fui censurada na minha faculdade porque eu escrevi numa crônica que gostaria que o Geraldo Alckmin fosse “ENCOXADO POR UM ATOR PORNÔ BEM DOTADO”. Sério mesmo. Ainda por cima briguei com a reitoria e contra um sistema lento e cruel em prol dos alunos. Ano passado eu achei que me envolver num movimento político estudantil era um caminho pra mudar alguma coisa, pelo menos numa micro-esfera. Um ano depois, acho mesmo que não vale a pena. Não recomendo.

Voltei aos quilos excedentes de três anos atrás, aos cabelos curtos de oito anos atrás, terminei um namoro e me sinto feliz. A última vez que eu estive solteira eu tinha 17 anos. Era preocupada com saltos e baladas onde pudesse achar caras legais. Agora é diferente. Tô saindo de óculos, os tênis de sempre e o foco é ir onde os amigos estejam e a música seja legal. Agora é diferente. Não preciso de novos lugares, novas pessoas a todo momento. É diferente porque cada dia e cada sensação parecem novos, por mais clichê que isso pareça. Acho que voltar a ler como há muito não lia me fez escarafunchar cada novidade que descubro em mim. Agora eu também falo sozinha e discuto desde essas descobertas até se vou ou não lavar a roupa hoje sem sentir vergonha nenhuma disso.

E pra 2012 a única coisa que eu peço (além de TERMINA LOGO POR FAVOR) é que continue assim. Diferente.

 

 

 

 

 

 

“O quê que eu vou fazer com essa tal liberdade?” – PIRES, Alexandre. 1995

emile hirsch seu lindo

Recentemente, eu terminei um namoro de dois anos. Uma das causas clamadas foi ser ~livre~. Sabe, não precisar se preocupar com a sua depilação e com o que fazer num domingo que atenda a dois gostos diferentes? Daí, estou sentindo essa coisa gostosa que é simplesmente escolher por si só o que fazer, e é bem egoísta, mas ainda assim uma delícia.

O problema, amigo, é que isso é uma ilusão. Não somos livres mesmo, nunca seremos. A liberdade não existe, e é mais fácil pensar assim do que ficar se iludindo achando que você um dia vai ser um Chris McCandless. Você pode não ter um namorado, mas ainda assim terá que agradar sua família em finais de semana e algumas horas por domingo. Mesmo sem namorado e família,vai te restar a sua virilha que vai suplicar por uma depilação ainda que bem ocasional ou, se você for homem, não pode viver sem cortar as unhas para sempre.

Existe um momento em que você se sente livre. Eu já tive esse momento, certamente ainda terei outros. Aquela fração de tempo meio perdida e acidental em que você olha para os lados, para cima e para baixo e vê que está sozinho, que toma suas próprias decisões e manda, enfim, no seu nariz. Você, que se pensa livre, vai me dizer que olha só eu estou me contradizendo. Mas não, apesar de eu também achar que esse momento existe, tenho 100% de certeza que não passa de um acaso do destino, um feliz acidente de percurso que quase te provoca orgasmos de tanta felicidade.

No fim das contas, aqui está a pia cheia de louça e o prazo das matérias me lembrando que a liberdade não é nada além de pequenos momentos espalhados ao longo dessa estrada cagada que chamamos por conveniência de vida.

Rastro

O problema é que as pessoas cheiram

Apesar dos perfumes

Apesar dos hidratantes corporais

As pessoas tem cheiros, e isso é uma grande verdade

Dentro dos trens lotados

Na forma do corpo vazio ao lado, na cama

 

O cheiro suado

Do dia repleto do trabalho

O cheiro de alho e cebola

Que teima em ficar nos dedos

As pessoas tem cheiros

Mesmo por baixo da água de colônia

Cheiro da boca

Cheiro do suor

O inegável cheiro do sexo

É esse o grande problema do mundo:

As pessoas cheiram

A casa da esquina

De repente, eu não sou mais uma criança metida a sabichona discutindo com minha bisavó malufista sobre política. Não tenho mais tamanho nem parentes velhinhos para aturar essa minha inconveniência.

A casa da esquina agora é só uma casa na esquina. O gato colorido que não morria vai dar lugar a uma placa de vende-se (talvez). As bolas grandes e iluminadas espalhadas pelas árvores do jardim no Natal não vão mais ter espaço entre o matagal abandonado e as rosas vão morrer por falta de carinho.

No segundo andar da casa da esquina nunca mais duas adolescentes malucas vão fugir se agarrando pelas heras que alguém vai precisar cortar antes que engulam a casa. Não vai mais ter banheira antiga para nenhum neto deslumbrado ir à desforra.

O jogo de resta-um podia mudar de nome. Agora falta-um.

Tô estudando uns projetos…

Eu e a minha amiga Mariana compartilhamos de vários interesses: boa música (tirando a parte que ela ouve Rammstein), bons livros, bons drink, metrô e piadas ruins.

Pensando nisso, nos juntamos ao namorado dela, Caio Neumann, para criar o Jam Sessions no Metrô, um blog para compartilharmos livros e CDs que ouvimos durante nossas árduas trajetórias no transporte público. Olha aí que belezinha!

Escrevo lá toda quarta e hoje é meu post de estréia. Fala sobre meu herói, o bom e velho Bukowski.

Vai ver, já que post novo por aqui tá mais difícil do que dinheiro na minha conta!

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