Como a arte nasce? Como perceber beleza nas coisas que vemos todos os dias? Como enxergar de fato essas coisas? Díficil responder essas perguntas, dentre as tantas outras que faço, difícil treinar o olhar. Mais difícil ainda foi perceber Terezinha, que, diferente da de Jesus, não foi ao chão.
Faz quatro anos que moro no Edifício Fúlvia, e só agora reparei em Terezinha, roxa, viva, a única coisa que parece respirar nesse frio tão absurdo e contrastante ao sol brilhando lá fora. Terezinha é uma árvore. A única árvore da rua que debocha do outono e se ergue magistral na rua, bem próxima a árvore dos clichês do texto abaixo, que, por ser uma árvore-clichê, já deixou junho secar quase todas as suas folhas. Se ergue magistral é uma hipérbole, uma superestima que na verdade nunca é direcionada a Terezinha. É provavél que ninguém a note, eu mesma só agora reparei na ousadia dela de querer ser uma árvore do contra, a única diferente por aqui. Será que as outras árvores a desprezam por isso? Será que na primavera Terezinha ficará tão sem vida quanto a árvore-clichê está agora? Será que até a primavera a presença de Terezinha ainda será notada por mim que tenho olhos tão destreinados e dispersos?
Sem analogias e sem clichês, Terezinha não precisou de três cavalheiros a acudindo para levantar do chão. Terezinha não caiu, e sorri pra mim toda tarde, com o roxo de suas flores constrastando com o bonito sol de outono, que, como fizesse companhia a Terezinha, também debocha do vento frio e brilha, refletindo a árvore sem outono da calçada em frente ao Edíficio Fúlvia.



Junho 5, 2009 às 4:30 am |
Minha professora diz que arte é a expressão da alma.
Vai ver que a Terezinha está se expressando, contrariando as árvores-clichê. =D
Junho 10, 2009 às 2:27 pm |
A arte nasce a partir do texto abaixo, quando você vem e escreve este acima. Quando você nomeia a árvore que vive em frente ao seu apartamento e você diz que ela debocha do outono por ainda ter flores e que as outras árvores talvez a invejem. Que a partir daí você vai acordar e ir pra janela dar bom dia à árvore.
Mas e quando ela não aguentar mais? E quando os dias frios e sem sol chegarem realmente e ela tiver que assassinar suas flores pra sobreviver ao frio? As outras árvores então rirão dela e dirão: Viu Terezinha, essa é a natureza, não adiantar lutar contra ela. ?
E aí sim, é que talvez seus olhos não notem mais Terezinha, eles esqueceram de olhar pra árvore quando sair pelo portão do prédio e sorrir sem que ninguém veja, porque nesse momento, provavelmente já tenha nascido outra arte.