Folhas Secas

Maio 27, 2009

A gente passa a vida toda fugindo dos clichês, ou pelo menos as pessoas que se julgam inteligentes fazem isso, ou talvez seja só eu que me ache esperta e diferente demais pra viver clichês. Mas a verdade é que, como se diz por aí, se uma coisa é clichê é porque ela dá certo, é porque ela é verdade. É um saco, porque sabendo disso, todas as nossas expectativas sobre como somos únicos desaparecem.

Por exemplo, quando um amor acaba. Você vai, chora, grita e sempre tem alguém que te fala ‘vai passar’ ou ‘o tempo cura tudo’ aí você pensa que a pessoa é uma idiota e nunca sentiu o que você sente. Mas é verdade, passa mesmo, não importa o quê. Eu até pensei outro exemplo pra não ser tão clichê assim falando de amor, mas não tem jeito, porque a maioria dos clichês fala de amor e o amor é a coisa mais cafona e clichê do mundo. E talvez por isso mesmo que eu evite falar de amor, porque parece óbvio demais, um destino a qual todos estamos fadados. Mas hoje eu vou me entregar a todos os clichês, afinal, pra quê resistir?

Outro clichê que é bem irritante e bem verdade, são as borboletas. Aliás, borboleta é uma fonte inesgotável de clichê e cafonice. Dizem que a gente tem que cuidar do jardim em vez de correr atrás das borboletas, mas ninguém tem um clichê de como fazer o tempo passar mais rápido e as borboletas malditas virem até nós. Dizem também que quando você se apaixona sente borboletas no estômago, e isso é verdade, mas como eu odeio clichês eu costumo dizer que tem um carrinho de montanha russa desgovernado no meu estômago, bem mais legal.

Mas tem um clichê que não teve como eu não me render ao abrir a janela da sala hoje a tarde. Está chegando o outono, e a árvore daqui da frente do meu prédio que a há dois meses estava toda florida de flores laranjas (florida de flores sim, porque não?) agora está só com umas poucas flores resistentes, e a calçada está coberta de folhas nos tons mais variados de verde. E aí deu pra refletir sobre como tudo é um ciclo mesmo, que as folhas secas precisam cair pra outras novas nascerem, que a árvore precisa passar uns dias sem folhas e flores pra abrir espaço pra florescer de novo e querer isso. E que cada uma dessas fases é necessária e tem sua beleza.

Os clichês estão aí, sendo vomitados pra gente o tempo todo. Dá pra correr deles, mas certamente não dá pra se esconder, uma hora eles te alcançam, e fazem cair toda ilusão que exista de que somos únicos e especiais demais pra viver como os nossos pais viveram. Ainda bem que os meus clichês são todos felizes.


Da personificação e nossa mania de psicologizar tudo

Maio 19, 2009

Eu personifico coisas, eu faço neologias. Não é porque as coisas sobre as quais eu quero falar não existem e eu preciso inventá-las ou dar forma a sentimentos para torná-los mais fáceis de lidar. Não é porque a minha vida não é interessante e eu tenho uma auto estima baixa, então eu preciso falar sobre coisas que não são reais e contar histórias que não são minhas. Percebam aí um trauma de quem detesta gente que fala que tudo na vida tem um fundo psicológico (daí a palavra mal-inventada do título, caso não esteja óbvio o suficiente).

Talvez seja por isso de sempre achar que as pessoas vão ver um outro sentido no que eu escrevi que eu repita muito as palavras, ou talvez seja só porque fique mais bonito no texto. Eu personifico coisas. Talvez porque seja bonito personificar também, afinal o que é mais legal: o amor como um sentimento sem cor e sem definições ou como um homem gordo e inconveniente que se mete em cada espaço do seu mundo sem pedir licença?

Eu personifico coisas, e repito. Ah, eu invento histórias também. Fico imaginando o mundo que existe na minha cabeça, onde mora tanta gente (gente personificada, fique bem claro) e parece que sobra tanto espaço também. Fico imaginando o mundo que tem na cabeça de cada pessoa, e como cada pessoa é tão infinita e é praticamente um crime definir alguém. Mas isso seja talvez uma desculpa para eu mesma não querer me definir. Um chove-não-molha eterno, onde cada hora eu sou o que eu quiser, ou era, ou serei de novo ou ainda vou ser. Uma contradição, uma não, várias, tão difíceis de se fazer entender como esse texto.

Quando eu escrevo não sou só eu (e eu não sou esquizofrênica), são vários eus trabalhando em uma linha de produção bagunçada e falha na minha cabeça, que vomita de repente histórias inteiras, que às vezes não significam nada e eu gosto de como as pessoas dão significados diferentes pra isso. Não gosto de análises psicológicas, mas gosto das pessoas verem sentido nos mundos que eu crio. E talvez nesses pedaços de mundo, nesses textos profundos sem querer eu mostre quem eu sou, mesmo que esteja dividido em um milhão de pedaços. Cabe a quem julgar interessante montar, porque a mim, sinceramente, não interessa nem um pouco. Por isso, eu personifico coisas. Para não personificar a mim mesma.


Uma Fábula Moderna

Maio 11, 2009

No princípio, Deus criou do barro o Amor, à sua imagem e semelhança, e viu que era bom. E o Amor sempre está por aí chorando, ou sorrindo sozinho, ou sendo atropelado. A Inveja é uma mulher bonita, mas mal cuidada, não tem espelho em casa, e vive furando pneus do carro da Satisfação, ela sempre faz isso de certa forma influenciada pelo Humor. O Humor é um senhor grisalho, ciente de seu poder e equilibrado, sempre ocupado influenciando decisões ou incentivando atos descabidos, ou não. Sábio como é, coube a ele a responsabilidade de cuidar do casal de gêmeos que sua mulher, a Ironia, havia acabado de parir: Bom Humor e Mau Humor.

A Ironia não viu graça nenhuma quando as duas crianças mostraram que eram mesmo aquilo para a qual haviam nascido: o Bom Humor fazia os velhinhos nas praças rirem à toa, e os seus colegas da escola adoravam rir quando ele fingia algum tombo. O Mau Humor, por sua vez, não achava graça em nada daquilo, e já tinha enraizada no seu rosto uma expressão carrancuda de quem muito reclama da vida. O Mau Humor era melhor amigo do Sarcasmo, cresceram juntos, vendo como o Bom Humor se destacava em meio ao mar de risadas que sempre provocava em todos.

A coisa foi crescendo e o Bom Humor virou um astro, protagonizou séries de TV e foi capa de revistas internacionais. Os papparazzi, os fãs, o Bom Humor não tinha mais paz, todos queriam ser engraçados como ele. Um dia o Bom Humor, numa atitude que é considerada até hoje como a primeira falha da Criação Divina, não sorriu quando saia de um restaurante. Pelo contrário, avançou contra o fotógrafo e jogou um pedaço de bisteca que foi parar bem na testa do pobre coitado. Ninguém achou graça. O Bom Humor ganhou fama de vilão, Deus, sendo o Todo-Poderoso das empresas de comunicação, cancelou os programas feitos por ele e o deixou deprimido. A Ironia viu que, enfim, as coisas estavam ficando interessantes naquela pasmaceira em que viviam.

A população não ria mais do Bom Humor, que por um tempo até tentou contar piadas de boa índole em praça pública por alguns trocados. Mas a Risada, velha companheira, já o tinha abandonado e arrumado novas companhias. Andando com Sarcasmo e Mau Humor, antes escorrraçados dos círculos sociais, a Risada foi aos poucos mudando a imagem do gêmeo magricela: era engraçado agora o que era ruim. Os absurdos eram engraçados, o humor negro começou a dar audiência e as pessoas assistiam no Youtube milhares de vezes o vídeo do Mau Humor reclamando da vida ao acordar. Deus ficou surpreso ao ler nos jornais sobre o novo tipo de humor que havia nascido, quem ousaria mudar tudo o que tinha sido criado por Ele? O Bom Humor virou motivo de chacota e, sendo agora a aberração que é, trabalha como escrivão num cartório do centro da cidade. Burocracia de segunda a sexta, sem graça nenhuma.

O Mau Humor agora anda em carros conversíveis e dá entrevistas reclamando das suas mansões espalhadas pelo mundo inteiro ou de como é surreal uma pessoa chamada Mau Humor ganhar a vida como comediante. A Ironia, agora uma mãe luxuosa e popular, ri da situação e vive dizendo a todos com o maior ar de sabedoria sobre como a vida é mesmo um mar de opostos e contradições. E por isso mesmo é tão engraçada, e mau humorada.