Meia poesia.

Março 27, 2009

Hoje querendo fazer rir eu fiz chorar, querendo fazer chorar fiz rir e querendo matar a fome, matei só a vontade de comer. Querendo sarar eu só fiz machucar. Querendo fazer Si eu só fiz Dó, querendo aliviar só fiz afogar. Hoje eu matei minha preguiça, mas não o meu cansaço.
Quis fazer poesia, mas só fiz embaraço.


Ironia Fina

Março 19, 2009

O cúmulo da ironia seria

a) A repórter Ananda Apple em uma reportagem sobr preço de frutas. (Hoje no SPTV 1ª edição).

ou

b) Eri Johnson e a sua nova estréia teatral: “Eri Pinta Johnson Borda” ?

E que pinta!

E que pinta!


Memórias Póstumas de Brás Pulgas.

Março 17, 2009

Já faz um tempo que eu estou me vendo deitado, jogado, a apenas alguns passos daquilo que, dizem, é a minha alma, provavelmente alma penada, ou peluda. Um tempo deve significar uns 5 dias, já é o suficiente pra um cachorro que já não cheirava muito bem vivo começar a cheirar mais mal ainda.

Passei a minha vida inteira sem querer ser cachorro, vendo os humanos ora do lado do parque que dava na favela, ora passando em carros caros no lado do parque que dava pro shopping. Não entendia muito bem como os humanos podiam ser tão diferentes assim, eles conseguem até fazer os cachorros serem diferentes: se não existissem humanos, todos os cachorros iam ser fedidos e famintos que nem eu, e ai aquelas peludas cheias de frufru iam brincar comigo ao invés de me olhar com cara de desprezo da janela do carro. Verdade seja dita que eu era feliz algumas vezes, quando podia ir no parque e chegar bem perto do lago antes de algum guarda chegar, mas queria mesmo era ser humano, e ter esse poder todo.

Estranho que mesmo eu querendo ter sido humano, ainda não consigo sair daqui, não consigo parar de olhar praquele saco de pulgas com umas moscas rondando, e sentir falta de estar ali. Fico até condenscendente, será que eu não merecia pelo menos não ficar ali apodrecendo ao léu? Talvez eu não mereça mesmo, minha única utilidade foi passar pulgas para a Bia (a poodle que fugia de casa algumas vezes; tivemos um rápido envolvimento físico, porém não amorso) e sujar os jardins que os homens da prefeitura plantaram aqui. Eu me divirto mesmo com a reação das pessoas ao passar por aquele resquício de mim. Uns fazem cara de nojo, a maioria cutuca o do lado, aceleram o passo. As mães tampam os olhos das criancinhas, e eu ousaria dizer que já vi até alguns com lágrimas nos olhos. Eu não culpo ninguém, parece que a cada dia o cheiro fica pior.

Antes de eu morrer, parecia que eu já sabia que tudo ia acabar mesmo. Não tinha mais a força e nem a vontade de antes. Mas, num ímpeto de rebeldia, talvez força final dos últimos dias, resolvi realizar o meu último desejo, ir até a eldorado dos vira-latas, um lugar onde nenhum cachorro jamais ousou chafurdar: o lixo do shopping, da praça de alimentação, do cheiro gostoso que dava pra sentir na parte de trás do paredão, daqueles caminhões que, eu tenho certeza que eram de comida mesmo, adentravam lá aos montes, todos os dias, o cheiro da satisfação.

Elaborei um plano. Veja, eu sou um cachorro, mas eu penso sim, até biografia estou fazendo! Voltando ao plano, na segunda a tarde tomei um banho no lago que se formou na rua depois da chuva, pra parecer mais doméstico, sabe? E, assim como um kamikaze, juntei o maior fôlego possível e saí em disparada. Entrando pela porta menor, a que as pessoas que compram não usam, corri em disparada, seguindo apenas aquele cheiro maravilhoso , aí os humanos já começaram a gritaria. Cachorro, vira-lata, pega esse pulguento, ai minhas roupas, vai sujar tudo! Eu alheio a tudo isso, me sentindo como um astro de cinema, corria, altivo, meio capenga, mas altivo. Então eu vi: o lixo mais cheiroso do mundo.

Era assim que o Céu deveria cheirar (engraçado isso, visto que eu já morri e nada de céu ainda, muito menos de cheiro), e eu não tive muito tempo antes dos seguranças chegarem. Foi o suficiente pra mergulhar naquilo tudo. Tantos sabores, tantas cores, tanta comida jogada fora! Abocanhei o máximo que consegui, mas meu corpo já estava tão fraco que não aguentou tanta comida. Enquanto eu ia, meio sonolento, sendo arrastado pelos seguranças e jogado de novo na rua, de onde iria cambaleando até esse cantinho de jardim, sentia o cheiro mais sublime de todos até então: o cheiro da vitória.


Expectativa – Ponto de Vista nº 1.

Março 10, 2009

Expectativa. Era expectativa o que Antunes sentia enquanto fazia mecanicamente o que já havia deixado de ser feito criativamente há muito tempo. Expectativa de que seu chefe finalmente reconhecesse o tanto que ele fazia por tão pouco, há exatos quatro anos, sete meses e treze dias, assim como contava também os tão mais extensos vinte e um anos, onze meses e um dia do seu casamento com Lurdinha. Um homem de contar o tempo era o Antunes, e quanto mais contava, mais se angustiava, e mais esperava.

Mesmo depois de dezenove anos e dez meses de convivência com o único filho, Antunes ainda tinha expectativas de que o menino, agora homem criado, com barba falhada e uma moto que a mulher teimou em dar, fosse um dia reconhecido por seus talentos. Talentos, é claro, que só o Antunes e Lurdinha, mais realista essa, viam. Expectativa também ele tinha de que o seu Bragantino, time do coração apesar de viver na capital há mais de trinta anos, um dia fosse reviver as glórias do passado, de uma época que seu bigode era mais bonito e as expectativas maiores ainda.

A Expectativa era praticamente uma pessoa na vida de Antunes, um bem. Ele sentia ou a possuía? Sabia que já havia nascido com ela. E ela conseguiu ser mais fiel a ele do que a própria Lurdinha, coitada da Lurdinha. Mesmo quando ele não ganhou a promoção tão aguardada após quatro anos, sete meses e treze dias de trabalho naquela sala sem ar condicionado e com uma janela que dava vista pro escritório bonito do prédio da frente, a Expectativa não foi embora, e continuou passando a mão na cabeça do Antunes. Quando olhou para a arquibancada tão vazia de um jogo qualquer do seu Bragantino, a Expectativa ainda ficou lá, e pediu mais paciência, que estava vindo um novo atacante do XV de Jaú e os tempos áureos voltariam. Depois de dez anos, oito meses e cinco dias de casado, quando viu que Lurdinha, que já não era lá essas coisas, estava com um peito pior ainda do que tinha nas épocas de namoro, a Expectativa o consolou dizendo que a convivência e o tempo trariam bens maiores ainda que os males que a ela espantava da cabeça de Antunes. Foi a Expectativa que aconselhou Antunes a sair logo daquele empreguinho miserável (palavras da própria expectativa), mas foi Lurdinha que deu um bofetão na cara de Antunes, quem é que ia pagar as contas agora? O Antunes Jr. que não seria, muito menos a Expectativa.

Depois de onze meses desempregado, e com Antunes Jr. já pela quarta vez fazendo o segundo ano do ensino médio, Antunes resolveu se separar de vez, da Expectativa que o fazia esperar mais do que devia (palavras de Lurdinha). Mas a Expectativa já estava num caso antigo demais com ele para sair assim de sua vida, sem nem ao menos uma divisão de bens ou um processo litigioso. E foi com um carinho na cabeça e umas palavas escorridas no ouvido, que Antunes, confiando cegamente na sua fiel companheira, abandonou Lurdinha e foi viver num chalé perto de Caruaru, vendeu seu carro e comprou um arado e algumas sementes, e espera até hoje (já faz nove anos, três meses e alguns dias – Antunes parou de contar) que a Expectativa traga a chuva que ela prometeu. Uma chuva que vai brotar até trufa francesa no sertão, palavras da própria expectativa.